quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Resenha #13 - O Código Élfico, Leonel Caldela

Título: O Código Élfico
Série: -
Autor: Leonel Caldela
Fantasy - Casa da Palavra
A pequena cidade de Santo Ossário esconde muitos segredos. Entre os habitantes, Nicole, uma jovem corajosa, descobre estar ligada aos mistérios da cidade, o que a leva a uma investigação sobre o próprio passado. Seu pai foi um famoso assassino que pertencia à ordem de seguidores de uma deusa oculta, sacrificando inocentes em rituais. Em Arcádia, um mundo paralelo governado pela deusa, vivem os elfos. Criaturas perfeitas que há milênios sonham em recuperar o poder sobre os humanos. Finalmente veem a esperança no novo guerreiro Astarte, treinado em arquearia, que deve abrir o portal que liga os dois mundos e exercer o domínio da Rainha sobre a Terra. Astarte, no entanto, é o único que desconhece o seu destino, até o momento de cumprir com a sua sina. Avesso aos interesses do seu povo, o elfo resolve juntar-se aos mortais em Santo Ossário. Agora, Nicole e Astarte estão ligados a um mesmo propósito: reunir os habitantes da pacata cidade e derrotar os seres místicos que ameaçam dominar o mundo.

Eu estava meio que com um pé atrás com esse livro. Depois de algumas experiências ruins com literatura fantástica brasileira, todo livro desse estilo originário daqui me deixa hesitante, e olha que é o meu gênero favorito (mesmo que tecnicamente O Código Élfico seja uma espécie de Science Fantasy, embora haja gente dizendo que é New Weird??? Eu sei lá). Já tinha O Código Élfico aqui desde 1500 a.C., mas continuava empurrando outros livros na frente com medo de acabar me decepcionando durante a leitura. Minha cisma foi tão tensa que mesmo depois de tê-lo iniciado enrolei por quase um mês para chegar na última página.

Ficar sem internet por dois dias foi a solução. Para minha surpresa (e para a das minhas amigas, que acompanhavam meus comentários durante a leitura), eu gostei.

Há várias coisas que me agradaram nesse livro. A primeira é a escrita do Leonel Caldela, que me lembrou um pouco a do Justin Cronin em A Passagem, ganhando assim minha aprovação em um piscar de olhos. O tom do livro é bem diferente dos outros que estão no mercado, e mesmo toda a mistura me deixando meio de testa franzida (elfos + ciência + fantasia + conspirações = ???, ou foi o que eu pensei), o modo como tudo foi apresentado me agradou bastante. O ritmo do livro é ótimo, tendo capítulos mais curtos quando necessário e sem aquela velha enrolação que enche o saco em livros não tão finos (O Código Élfico tem mais de 500 páginas).

"Se ela lembrasse do Dragão, da espada e da máscara de ouro, poderia estar preparada. Se recordasse a razão do treinamento que ainda não acontecera, saberia que a deusa se aproximava, e que tudo que ela procurava deixar para trás estava voltando, pior do que nunca."

Quanto aos personagens, eu gostei da maioria. Nicole, a protagonista, é legal, e o Astarte também é, mas não caí de amores por nenhum dos dois. O romance entre eles passou por mim impassível, mas não foi ruim. De um modo geral, me agradou, e os personagens secundários roubaram a cena várias vezes. 

Há defeitos no livro, claro. As estripulias de Nicole e Astarte me irritaram além da conta. Sim, eu saquei que eles podem dar um duplo salto mortal de costas, mas a coisa me pareceu tão forçada que eu passava direto pra não me aborrecer ainda mais. Os ferimentos graves (e mortais) que permitiam que todo mundo continuasse fazendo mil coisas também me frustraram profundamente. Algumas outras partes pareceram forçadas também. Isso tudo foi, sinceramente, o ponto baixo do livro (no final então…), mas acho que tirando isso não há nada mais a ser dito de modo negativo não. Os diálogos foram bons e sim, isso é uma grande coisa quando se trata de livros brasileiros para jovens (não vou citar nomes, masss).

Para finalizar, gostaria de deixar meu protesto para os escritores de fantasia brasileiros: parem de matar os personagens legais. Por favorzinho. A coisa está saindo de controle. Primeiro foi o André Vianco em Os Sete (até hoje não li Sétimo, e por quê? Meu personagem preferido morreu, muito obrigada), depois o Eduardo Spohr (Anjos da Morte está mofando aqui porque uma certa pessoa morreu no final de Herdeiros de Atlântida, para minha frustração) e agora o Leonel Caldela, mas esse não corre risco de eu não ler o próximo livro dele, já que O Código Élfico é volume único. Mas enfim. Parem.

É isso. 4 asinhas para O Código Élfico.

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sábado, 2 de novembro de 2013

Dicas de Escrita #03 - Fantasia & Sobrenatural - Conhecimentos básicos (1/2)

Dentre todos os gêneros literários, acredito que sobrenatural se fantasia são os que mais e misturam. Na verdade, é até bem difícil marcar uma linha divisória entre os dois, principalmente entre o sobrenatural mais comum e a fantasia urbana; são muito parecidos e as definições variam de pessoa para pessoa.

O sobrenatural é sem dúvida o gênero mais popular entre os jovens atualmente - ou pelo menos o romance sobrenatural é. Aqui no Brasil, a fantasia nunca foi muito famosa, mas nos últimos anos o número de livros lançados com essa temática, tanto nacionais quanto estrangeiros, vem aumentando bastante. Logo, é para o sobrenatural e a fantasia que boa parte de nós, escritores, se volta para escrever. Mas, como bem sabemos, para escrever é preciso, antes de tudo, conhecer.

Sobrenatural

Um livro do gênero sobrenatural é aquele que possui elementos acima do que consideramos “natural”, como, por exemplo, fantasmas, bruxas, vampiros, lobisomens ou, resumindo, as lendas e mitos que a humanidade vem colecionando desde os tempos imemoriais. Obviamente você conhece vários, tanto na literatura quanto nos cinemas; Crepúsculo, Sussurro, Fallen, The Vampire Diaries, Supernatural, e tantos outros. 

Enquanto a fantasia é o gênero mais livre de todos - afinal, você pode, tecnicamente, fazer o que quiser -, o sobrenatural é o mais acessível e, me atrevo a dizer, fácil; o número de lendas que você pode usar é praticamente infinita e, ao contrário da fantasia mais popular, a alta, você não precisa criar um novo mundo. Basta adaptar o nosso.

Nenhum livro bom foi feito com uma receita, mas há alguns elementos que você deve pesquisar e se aprofundar antes de começar sua história sobrenatural.


  • O mundo.
Pare por um momento e pense em todas as histórias sobrenaturais que você já viu por aí; quase todas são sobre as fronteiras do nosso mundo sendo, pouco a pouco, desfeitas diante dos olhos do protagonista. Mesmo que em algumas o personagem principal já faça parte desse outro mundo ou em que outras o sobrenatural seja considerado normal (House Of Night, por exemplo), o leitor tem que sentir que está entrando em um mundo novo sem ter que sair do nosso. Se a seu mundo sobrenatural não for crível, você falhou na primeira regra do gênero.

O primeiro passo para não cair nessa armadilha é se organizar e não ser muito cliché (ninguém consegue ser totalmente não-cliché, acredite). E o melhor jeito de se organizar é simplesmente sentando a bunda na cadeira e fazendo perguntas acerca desse mundo (provavelmente) escondido em que você quer ambienta sua história.

Quais são as criaturas sobrenaturais que existem? Quais não existem? Onde elas vivem? Como se escondem dos humanos (se é que se escondem)? As lendas se aplicam a elas ou não (a bala de prata mata o lobisomem? Vampiros continuam não gostando de alho? Se você disser Bloody Mary três vezes na frente do espelho do banheiro ela vai aparecer?)? Existe algum tipo de hierarquia? Quais raças não se gostam? Quais têm aliança? Existem humanos que sabem da existência dessas criaturas sobrenaturais? Se sim, como eles se organizam? Eles lutam contra essas criaturas? Se sim, como?

Essas são algumas das perguntas que você tem que se fazer para organizar bem sua história. Tome muito cuidado com essa etapa porque furo em lendas e mitos em livros sobrenaturais é uma das falhas mais terríveis que você pode cometer.


  • Mistério
A esmagadora maioria das histórias sobrenaturais possuem pelo menos um mistério. Eles são, basicamente, a alma do gênero, justamente porque criaturas sobrenaturais são um mistério para nós. Dizemos que não acreditamos nelas, mas o fascínio que temos por qualquer coisa que não seja natural é muito maior do que essas certezas (aposto que, de noite, você já ficou com medo ao ouvir um barulho estranho na casa, mesmo dizendo não acreditar em fantasmas).

Construir um bom mistério não é fácil. Deixar pistas é menos ainda, porque você, obviamente, sabe mais do que o leitor e do que seu personagem principal. Às vezes você diz demais, às vezes de menos. Ou pior: tem que fazer seu protagonista dar uma de porta para não entregar logo de cara a reposta para o enigma.

O mistério de uma história sobrenatural está intimamente relacionado com o plot. E construir um bom plot é um inferno. É preciso organização e dedicação para tapar todos os buracos e criar reviravoltas interessantes. Não use coisas como coincidência, sorte, etc, para solucionar o mistério. Nada deixar o leitor mais frustrado.


  • Romance
Apresento-lhes o calcanhar de Aquiles de todos os gêneros literários. Romance pode estragar uma história que tem tudo para ser magnífica e é exatamente que o que vem fazendo nos últimos anos, pelo menos na minha opinião. Há livros com ideias incríveis por aí que pecam tanto na área de romance que se tornam obras estilo sessão da tarde; a gente lê, mas depois que se chega na última página nunca mais voltamos a falar da história.

O gênero sobrenatural está lotado de livros que falharam nesse aspecto. Eu tenho minhas teorias acerca dos motivos de esse gênero, entre todos os outros, ser o mais afetado, mas deixemos isso para outra ocasião. O que todos nós devemos aprender é como escapar dessa sina.

É difícil. Eu mesma sou uma toupeira com romances, mas sei bem o que me desagrada. Romance em livros sobrenaturais é extremamente cliché; quantos você já não leu que não tinham o mocinho, interesse romântico da protagonista, sendo um garoto sarcástico/misterioso que provavelmente apareceu nos sonhos dela ou a estava seguindo enquanto ela voltava pra casa? Quantos não são o completo oposto disso, sendo praticamente perfeitos (com algum segredo escuro e doloroso por trás do rosto e personalidade sem falhas)? Quantos não são o aluno novo? 

Em muitos casos, os dois pombinhos estão predestinados a ficarem juntos. Em outros, pelo menos um deles é bem mais velho, mas, por ser uma criatura sobrenatural, não há exatamente um problema e o personagem continua a agir como se tivesse a idade que continua a aparentar. A mocinha também é adorada por quase todos os caras que importam para a trama. E quase sempre há uma ex-namorada malvada querendo vingança.

Pior do que fazer um romance cliché é fazer um romance que ofusque o plot da história. Entenda: você pode muito bem escrever um romance em que os personagens sejam criaturas sobrenaturais e aí o foco será o romance por si só (Crepúsculo é um bom exemplo disso), mas dizer que seu livro é sobrenatural e deixar a história de lado por causa dos seus pombinhos é um erro sério. Quando eu pego um livro sobrenatural, espero encontrar um plot legal e um mistério instigante. Se tiver romance é óbvio que a coisa toda fica melhor, mas não é essa a maior preocupação que você deve ter.


  • O protagonista (e os outros personagens).
O personagem principal é geralmente uma garota. Boa de chance de ser uma menina com auto-estima no chão, excluída na escola e que adora ler. Outra boa chance de ser uma guria que só se mete em problema e não pensa duas vezes antes de socar a cara do garotão metido a playboy que não para de encher o saco.
Clichés, mais uma vez.

A construção dos personagens de muitos livros sobrenaturais da atualidade é péssima. Muitas vezes eles não passam de estereótipos; a líder de torcida, a mocinha excluída, o cara bonitão jogador de futebol (que pode ser um babaca ou um anjo), o cara bonitão quieto, o nerd, a amiga (provavelmente meio gordinha ou linda de morrer) que não engole sapos e tem língua afiada, o cara misterioso, o cara sarcástico, etc. A lista é enorme e, infelizmente, previsível.

Construa bem seu personagem. Dê a ele traços únicos. Faça dele uma pessoa e não um estereótipo. E, por Deus, não faça uma protagonista meio morta que só fica vendo a vida passar e vai na onda do que acontece à sua volta.


  • As criaturas sobrenaturais
Uma das maiores dificuldades dos escritores de sobrenatural é como adaptar as lendas ao que ele deseja. Há muitas controvérsias nesse assunto, muitas mesmo. Eu pessoalmente acredito que você deve fazer o que você quiser; tem gente que vai gostar, tem gente que não vai, mas como é impossível agradar gregos e troianos, o jeito é fazer e esperar pra ver no que vai dar.

A única coisa que eu acho que você deve evitar é criar características novas ou alterar velhas apenas para adequar seu mocinho bonitinho interesse romântico à sua protagonista ou à história dos dois. Sério. Tome muito cuidado com isso.

E, bem, qual o problema com criaturas de outras mitologias? A maior parte dos livros só tem da europeia. Há tantas culturas no mundo. Dê uma olhada em outras, veja o que tem de diferente e legal. Ficar na mesmice cansa.

Bem, é isso que tenho a dizer sobre o gênero agora. O resto são questões específicas, como construção de personagens, de plot e etc. Posto matérias sobre isso no futuro. Qualquer coisa é só deixar um comentário ou ir no Tumblr. Fui.
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