quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Resenha #13 - O Código Élfico, Leonel Caldela

Título: O Código Élfico
Série: -
Autor: Leonel Caldela
Fantasy - Casa da Palavra
A pequena cidade de Santo Ossário esconde muitos segredos. Entre os habitantes, Nicole, uma jovem corajosa, descobre estar ligada aos mistérios da cidade, o que a leva a uma investigação sobre o próprio passado. Seu pai foi um famoso assassino que pertencia à ordem de seguidores de uma deusa oculta, sacrificando inocentes em rituais. Em Arcádia, um mundo paralelo governado pela deusa, vivem os elfos. Criaturas perfeitas que há milênios sonham em recuperar o poder sobre os humanos. Finalmente veem a esperança no novo guerreiro Astarte, treinado em arquearia, que deve abrir o portal que liga os dois mundos e exercer o domínio da Rainha sobre a Terra. Astarte, no entanto, é o único que desconhece o seu destino, até o momento de cumprir com a sua sina. Avesso aos interesses do seu povo, o elfo resolve juntar-se aos mortais em Santo Ossário. Agora, Nicole e Astarte estão ligados a um mesmo propósito: reunir os habitantes da pacata cidade e derrotar os seres místicos que ameaçam dominar o mundo.

Eu estava meio que com um pé atrás com esse livro. Depois de algumas experiências ruins com literatura fantástica brasileira, todo livro desse estilo originário daqui me deixa hesitante, e olha que é o meu gênero favorito (mesmo que tecnicamente O Código Élfico seja uma espécie de Science Fantasy, embora haja gente dizendo que é New Weird??? Eu sei lá). Já tinha O Código Élfico aqui desde 1500 a.C., mas continuava empurrando outros livros na frente com medo de acabar me decepcionando durante a leitura. Minha cisma foi tão tensa que mesmo depois de tê-lo iniciado enrolei por quase um mês para chegar na última página.

Ficar sem internet por dois dias foi a solução. Para minha surpresa (e para a das minhas amigas, que acompanhavam meus comentários durante a leitura), eu gostei.

Há várias coisas que me agradaram nesse livro. A primeira é a escrita do Leonel Caldela, que me lembrou um pouco a do Justin Cronin em A Passagem, ganhando assim minha aprovação em um piscar de olhos. O tom do livro é bem diferente dos outros que estão no mercado, e mesmo toda a mistura me deixando meio de testa franzida (elfos + ciência + fantasia + conspirações = ???, ou foi o que eu pensei), o modo como tudo foi apresentado me agradou bastante. O ritmo do livro é ótimo, tendo capítulos mais curtos quando necessário e sem aquela velha enrolação que enche o saco em livros não tão finos (O Código Élfico tem mais de 500 páginas).

"Se ela lembrasse do Dragão, da espada e da máscara de ouro, poderia estar preparada. Se recordasse a razão do treinamento que ainda não acontecera, saberia que a deusa se aproximava, e que tudo que ela procurava deixar para trás estava voltando, pior do que nunca."

Quanto aos personagens, eu gostei da maioria. Nicole, a protagonista, é legal, e o Astarte também é, mas não caí de amores por nenhum dos dois. O romance entre eles passou por mim impassível, mas não foi ruim. De um modo geral, me agradou, e os personagens secundários roubaram a cena várias vezes. 

Há defeitos no livro, claro. As estripulias de Nicole e Astarte me irritaram além da conta. Sim, eu saquei que eles podem dar um duplo salto mortal de costas, mas a coisa me pareceu tão forçada que eu passava direto pra não me aborrecer ainda mais. Os ferimentos graves (e mortais) que permitiam que todo mundo continuasse fazendo mil coisas também me frustraram profundamente. Algumas outras partes pareceram forçadas também. Isso tudo foi, sinceramente, o ponto baixo do livro (no final então…), mas acho que tirando isso não há nada mais a ser dito de modo negativo não. Os diálogos foram bons e sim, isso é uma grande coisa quando se trata de livros brasileiros para jovens (não vou citar nomes, masss).

Para finalizar, gostaria de deixar meu protesto para os escritores de fantasia brasileiros: parem de matar os personagens legais. Por favorzinho. A coisa está saindo de controle. Primeiro foi o André Vianco em Os Sete (até hoje não li Sétimo, e por quê? Meu personagem preferido morreu, muito obrigada), depois o Eduardo Spohr (Anjos da Morte está mofando aqui porque uma certa pessoa morreu no final de Herdeiros de Atlântida, para minha frustração) e agora o Leonel Caldela, mas esse não corre risco de eu não ler o próximo livro dele, já que O Código Élfico é volume único. Mas enfim. Parem.

É isso. 4 asinhas para O Código Élfico.

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sábado, 2 de novembro de 2013

Dicas de Escrita #03 - Fantasia & Sobrenatural - Conhecimentos básicos (1/2)

Dentre todos os gêneros literários, acredito que sobrenatural se fantasia são os que mais e misturam. Na verdade, é até bem difícil marcar uma linha divisória entre os dois, principalmente entre o sobrenatural mais comum e a fantasia urbana; são muito parecidos e as definições variam de pessoa para pessoa.

O sobrenatural é sem dúvida o gênero mais popular entre os jovens atualmente - ou pelo menos o romance sobrenatural é. Aqui no Brasil, a fantasia nunca foi muito famosa, mas nos últimos anos o número de livros lançados com essa temática, tanto nacionais quanto estrangeiros, vem aumentando bastante. Logo, é para o sobrenatural e a fantasia que boa parte de nós, escritores, se volta para escrever. Mas, como bem sabemos, para escrever é preciso, antes de tudo, conhecer.

Sobrenatural

Um livro do gênero sobrenatural é aquele que possui elementos acima do que consideramos “natural”, como, por exemplo, fantasmas, bruxas, vampiros, lobisomens ou, resumindo, as lendas e mitos que a humanidade vem colecionando desde os tempos imemoriais. Obviamente você conhece vários, tanto na literatura quanto nos cinemas; Crepúsculo, Sussurro, Fallen, The Vampire Diaries, Supernatural, e tantos outros. 

Enquanto a fantasia é o gênero mais livre de todos - afinal, você pode, tecnicamente, fazer o que quiser -, o sobrenatural é o mais acessível e, me atrevo a dizer, fácil; o número de lendas que você pode usar é praticamente infinita e, ao contrário da fantasia mais popular, a alta, você não precisa criar um novo mundo. Basta adaptar o nosso.

Nenhum livro bom foi feito com uma receita, mas há alguns elementos que você deve pesquisar e se aprofundar antes de começar sua história sobrenatural.


  • O mundo.
Pare por um momento e pense em todas as histórias sobrenaturais que você já viu por aí; quase todas são sobre as fronteiras do nosso mundo sendo, pouco a pouco, desfeitas diante dos olhos do protagonista. Mesmo que em algumas o personagem principal já faça parte desse outro mundo ou em que outras o sobrenatural seja considerado normal (House Of Night, por exemplo), o leitor tem que sentir que está entrando em um mundo novo sem ter que sair do nosso. Se a seu mundo sobrenatural não for crível, você falhou na primeira regra do gênero.

O primeiro passo para não cair nessa armadilha é se organizar e não ser muito cliché (ninguém consegue ser totalmente não-cliché, acredite). E o melhor jeito de se organizar é simplesmente sentando a bunda na cadeira e fazendo perguntas acerca desse mundo (provavelmente) escondido em que você quer ambienta sua história.

Quais são as criaturas sobrenaturais que existem? Quais não existem? Onde elas vivem? Como se escondem dos humanos (se é que se escondem)? As lendas se aplicam a elas ou não (a bala de prata mata o lobisomem? Vampiros continuam não gostando de alho? Se você disser Bloody Mary três vezes na frente do espelho do banheiro ela vai aparecer?)? Existe algum tipo de hierarquia? Quais raças não se gostam? Quais têm aliança? Existem humanos que sabem da existência dessas criaturas sobrenaturais? Se sim, como eles se organizam? Eles lutam contra essas criaturas? Se sim, como?

Essas são algumas das perguntas que você tem que se fazer para organizar bem sua história. Tome muito cuidado com essa etapa porque furo em lendas e mitos em livros sobrenaturais é uma das falhas mais terríveis que você pode cometer.


  • Mistério
A esmagadora maioria das histórias sobrenaturais possuem pelo menos um mistério. Eles são, basicamente, a alma do gênero, justamente porque criaturas sobrenaturais são um mistério para nós. Dizemos que não acreditamos nelas, mas o fascínio que temos por qualquer coisa que não seja natural é muito maior do que essas certezas (aposto que, de noite, você já ficou com medo ao ouvir um barulho estranho na casa, mesmo dizendo não acreditar em fantasmas).

Construir um bom mistério não é fácil. Deixar pistas é menos ainda, porque você, obviamente, sabe mais do que o leitor e do que seu personagem principal. Às vezes você diz demais, às vezes de menos. Ou pior: tem que fazer seu protagonista dar uma de porta para não entregar logo de cara a reposta para o enigma.

O mistério de uma história sobrenatural está intimamente relacionado com o plot. E construir um bom plot é um inferno. É preciso organização e dedicação para tapar todos os buracos e criar reviravoltas interessantes. Não use coisas como coincidência, sorte, etc, para solucionar o mistério. Nada deixar o leitor mais frustrado.


  • Romance
Apresento-lhes o calcanhar de Aquiles de todos os gêneros literários. Romance pode estragar uma história que tem tudo para ser magnífica e é exatamente que o que vem fazendo nos últimos anos, pelo menos na minha opinião. Há livros com ideias incríveis por aí que pecam tanto na área de romance que se tornam obras estilo sessão da tarde; a gente lê, mas depois que se chega na última página nunca mais voltamos a falar da história.

O gênero sobrenatural está lotado de livros que falharam nesse aspecto. Eu tenho minhas teorias acerca dos motivos de esse gênero, entre todos os outros, ser o mais afetado, mas deixemos isso para outra ocasião. O que todos nós devemos aprender é como escapar dessa sina.

É difícil. Eu mesma sou uma toupeira com romances, mas sei bem o que me desagrada. Romance em livros sobrenaturais é extremamente cliché; quantos você já não leu que não tinham o mocinho, interesse romântico da protagonista, sendo um garoto sarcástico/misterioso que provavelmente apareceu nos sonhos dela ou a estava seguindo enquanto ela voltava pra casa? Quantos não são o completo oposto disso, sendo praticamente perfeitos (com algum segredo escuro e doloroso por trás do rosto e personalidade sem falhas)? Quantos não são o aluno novo? 

Em muitos casos, os dois pombinhos estão predestinados a ficarem juntos. Em outros, pelo menos um deles é bem mais velho, mas, por ser uma criatura sobrenatural, não há exatamente um problema e o personagem continua a agir como se tivesse a idade que continua a aparentar. A mocinha também é adorada por quase todos os caras que importam para a trama. E quase sempre há uma ex-namorada malvada querendo vingança.

Pior do que fazer um romance cliché é fazer um romance que ofusque o plot da história. Entenda: você pode muito bem escrever um romance em que os personagens sejam criaturas sobrenaturais e aí o foco será o romance por si só (Crepúsculo é um bom exemplo disso), mas dizer que seu livro é sobrenatural e deixar a história de lado por causa dos seus pombinhos é um erro sério. Quando eu pego um livro sobrenatural, espero encontrar um plot legal e um mistério instigante. Se tiver romance é óbvio que a coisa toda fica melhor, mas não é essa a maior preocupação que você deve ter.


  • O protagonista (e os outros personagens).
O personagem principal é geralmente uma garota. Boa de chance de ser uma menina com auto-estima no chão, excluída na escola e que adora ler. Outra boa chance de ser uma guria que só se mete em problema e não pensa duas vezes antes de socar a cara do garotão metido a playboy que não para de encher o saco.
Clichés, mais uma vez.

A construção dos personagens de muitos livros sobrenaturais da atualidade é péssima. Muitas vezes eles não passam de estereótipos; a líder de torcida, a mocinha excluída, o cara bonitão jogador de futebol (que pode ser um babaca ou um anjo), o cara bonitão quieto, o nerd, a amiga (provavelmente meio gordinha ou linda de morrer) que não engole sapos e tem língua afiada, o cara misterioso, o cara sarcástico, etc. A lista é enorme e, infelizmente, previsível.

Construa bem seu personagem. Dê a ele traços únicos. Faça dele uma pessoa e não um estereótipo. E, por Deus, não faça uma protagonista meio morta que só fica vendo a vida passar e vai na onda do que acontece à sua volta.


  • As criaturas sobrenaturais
Uma das maiores dificuldades dos escritores de sobrenatural é como adaptar as lendas ao que ele deseja. Há muitas controvérsias nesse assunto, muitas mesmo. Eu pessoalmente acredito que você deve fazer o que você quiser; tem gente que vai gostar, tem gente que não vai, mas como é impossível agradar gregos e troianos, o jeito é fazer e esperar pra ver no que vai dar.

A única coisa que eu acho que você deve evitar é criar características novas ou alterar velhas apenas para adequar seu mocinho bonitinho interesse romântico à sua protagonista ou à história dos dois. Sério. Tome muito cuidado com isso.

E, bem, qual o problema com criaturas de outras mitologias? A maior parte dos livros só tem da europeia. Há tantas culturas no mundo. Dê uma olhada em outras, veja o que tem de diferente e legal. Ficar na mesmice cansa.

Bem, é isso que tenho a dizer sobre o gênero agora. O resto são questões específicas, como construção de personagens, de plot e etc. Posto matérias sobre isso no futuro. Qualquer coisa é só deixar um comentário ou ir no Tumblr. Fui.
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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Resenha #12 - Prince Of Thorns, Mark Lawrence

Título: Prince Of Thorns
Série: Trilogia dos Espinhos
Autor: Mark Lawrence
DarkSide Books
Skoob
Tem início a Trilogia dos Espinhos: Ainda criança, o príncipe Honório Jorg Ancrath testemunhou o brutal assassinato da Rainha mãe e de o seu irmão caçula, William. Jorg não conseguiu defender sua família, nem tampouco fugir do horror. Jogado à sorte num arbusto de roseira-brava, ele permaneceu imobilizado pelos espinhos que rasgavam profundamente sua pele, e sua alma. O príncipe dos espinhos se vê, então, obrigado a amadurecer para saciar o seu desejo de vingança e poder. Vagando pelas estradas do Império Destruído, Jorg Ancrath lidera uma irmandade de assassinos, e sua única intenção é vencer o jogo. O jogo que os espinhos lhe ensinaram. 

Prince Of Thorns é o primeiro da Trilogia dos Espinhos (The Broken Empire), do autor americano/britânico (sim, os dois) Mark Lawrence. Os volumes finais, King Of Thorns e Emperor Of Thorns, já foram lançados lá fora.

Quando vi Prince Of Thorns ainda na pré-venda, fiquei animada instantaneamente. A capa é perfeita. Aliás, toda a edição é perfeita, com capa dura e vários detalhes por dentro. Nesse ponto a DarkSide está de parabéns, e, se fosse por mim todos, os livros lançados aqui teriam o mesmo padrão de Prince Of Thorns. Realmente foi um trabalho excelente.

Continuando, a história de Jorg Ancrath, o Príncipe dos Espinhos, me chamou a atenção desde o primeiro momento. Confesso que sou fã de anti-heróis, já que na maior parte das vezes eles acabam sendo até mais interessantes e relatáveis do que os heróis comuns. Esperava condenar as ações de Jorg, mas ainda assim simpatizar com ele e compreendê-lo, e nem mesmo o fato de o livro ser narrado em primeira pessoa me incomodou nas primeiras páginas. Eu queria mesmo que esse fosse o melhor livro do ano pra mim.

Infelizmente, querer não é poder, como já sabemos.

Não sei exatamente onde a história começou a me perder. Talvez seja culpa do Jorg. Olha, eu realmente não me importo com violência em livros, e não foi isso que me fez perder o gosto pelo protagonista ou pelos acontecimentos. Na verdade, a única coisa que realmente me incomodou foi o que o Jorg fez com as filhas do fazendeiro, e essa parte sequer é narrada. Simplesmente foi um corta clima total, e, sei lá, não consegui me conectar mais com a história após isso. A impressão que tive do Jorg, apesar de todas as coisas ruins que ele fez, no entanto, não foi de que ele é cínico ou mal ou sei lá, mas sim de que ele é chato. Muito chato.

Não sei se é porque eu sou mulher, mas isso de estupro simplesmente... Não, sabe? Não rola, por mais que você esteja querendo fazer uma fantasia realística e coisa e tal. Você pode fazer, claro (a história é sua, afinal), mas eu não sinto vontade alguma de acompanhar um protagonista que faz esse tipo de coisa. O problema não é incluir o realismo... É esperar que a gente se finja de impassível diante de certas ações só porque elas acontece no mundo real. Acho que há um limite, e fosse o livro de fantasia ou não, eu não iria querer acompanhar Jorg Ancrath. Além disso, o modo como as mulheres são tratadas nesse livro me deixou bastante incomodada. Sabe quando você lê um livro e não consegue se identificar com os personagens? Então. Nenhum deles me cativou. Aliás, o nubano, um dos membros do grupo do Jorg, o fez, um pouco. Foi o único personagem com quem consegui me importar, e ele tem pouquíssimas falas (e nem tem nome). Tirando ele... Nada. 

"Diga-me, tutor," eu disse. "A vingança é uma ciência ou uma arte?"

Como não suporto o Jorg, ter ele narrando a história foi um tormento. Mesmo que em alguns momentos as coisas realmente ficassem interessantes, os comentários dele me enervavam tanto que eu perdia a vontade de continuar. A falta de conhecimento sobre o mundo - que, aliás, é o nosso modificado, uma sacada que achei bem legal - também me incomodou em algumas partes, mas acredito que estas questões serão respondidas nos próximos volumes.

Outra coisa que me irritou foi o deus ex machina do final. Um senhor deus ex machina, vale frisar, e uma maneira muito idiota de terminar com o livro. Eu tenho horror a finais como esse de Prince Of Thorns, que também acabou meio corrido.

E sinto muito, mas tenho que reforçar: Jorg é um pirralho chato pra caramba, convencido demais e terrivelmente forçado. Quase não pude me evitar de revirar os olhos a cada três páginas, e chegar na última foi como se eu tivesse sido liberta de cem anos de prisão. É sério.

Resumindo tudo, Prince Of Thorns tem uma ideia excelente, mas um desenvolvimento não tão bom quanto seria possível. Mesmo assim, recomendo para quem quer uma fantasia mais realística (hm) e não se incomoda uma dose boa de violência. Duas asinhas pra ele.


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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Análise #02 - Arya Stark (As Crônicas de Gelo e Fogo)

Como disse ontem na minha resenha de ASOIAF, eu já gostei mais da Arya. Lá no início, no primeiro livro, ela era minha segunda preferida, atrás apenas da Daenerys (que hoje, infelizmente, já não ocupa mais tal posto). Não vou tentar ser imparcial nessa análise, já que uso esse tipo de matéria justamente para mostrar os pontos fortes e fracos de cada personagem.

Diferentemente da Mikasa, da primeira análise, a Arya é de um livro, o que acaba tornando as coisas um pouco mais fáceis. 

(Não vou explicar o plot de ASOIAF aqui. Tem lá na resenha, para quem não conhece. E seguirei os livros, e não a série da HBO).

Arya Stark é a tomboy da Westeros. Ela não quer ser uma senhora como a mãe ou a irmã, mas sim um cavaleiro como o pai e os irmãos Robb e Jon Snow, o que não é exatamente cliché e sim uma trope muito usada nos livros de fantasia. Acho que a maior diferença entre Arya e as outras tomboys da literatura fantástica é o fato de que ela é bem mais nova e, também, que é forçada a amadurecer muito mais rápido.
Apesar de ter sido criada com todas as regalias em Winterfell, a vida de Arya nunca foi um completo mar de rosas. Por ser diferente, ela foi tratada mal por sua irmã Sansa e suas amigas, e até mesmo pela Septã Mordane, que nunca teve muita paciência com as peculiaridades da menina. Acredito que essa pirraça constante influenciou muito em sua personalidade, que se tornou bem mais obstinada e mesmo teimosa.
Porém, em Winterfell, Arya era feliz sim.

[SPOILERS PARA O LIVRO 1/SEASON 1]


Quando ela parte com o pai para Porto Real e o incidente com Mycah acontece, Arya começa a perceber que o mundo não é um lugar tão bonito assim. A morte de Mycah mostrou para ela que os mais fracos sempre acabam sofrendo no lugar dos mais fortes, e, é claro, contribuiu para suas picuinhas com Sansa, que no livro um era simplesmente insuportável. Mas quando ela começa a ter aulas de esgrima com Syrio Forel, Arya encontra seu lugar. Sim, ela está na capital e sua irmã ainda está por perto, mas agora ela pode fazer quase tudo que sempre quis. Arya pode correr atrás de gatos, pode aprender a usar sua Agulha e tem um dos melhores professores, tanto que suas lições ficam com ela durante todos os livros da série. Em Porto Real, Arya era feliz sim.

O que, é claro, acabou assim que seu pai foi assassinado.

[FIM DOS SPOILERS]

O que temos do segundo livro em diante é uma espécie de amadurecimento cada vez mais drástico para Arya Stark, que até deixa de se chamar assim em várias ocasiões. Arya é forçada a esconder que é nobre, que é uma garota e até a si mesma. Acredito que diante do tanto de coisa que acaba lhe acontecendo desde que ela deixa Porto Real, as duas únicas alternativas que restavam era ou desistir completamente ou lutar com unhas e dentes por sua sobrevivência. Obviamente, Arya escolhe a segunda opção.

E é aí que meu problema com ela começa.

Veja bem, Arya estava em uma situação desesperadora e ela tem no máximo dez anos no livro. Ela é só uma criança tentando não agir como uma para poder sobreviver, e isso eu compreendo bem e, óbvio, simpatizo com a situação. Mas Arya começa a agir como se não precisasse de ninguém e fosse melhor do que todos com que ela encontra, o que pode sim ser algum mecanismo de defesa e de autopreservação, mas que não deixa de ser uma mentira absurda. Para escapar de Porto Real, ela teve ajuda de Yoren, e continuou com ele por muitas e muitas milhas. Depois, teve Gendry e Torta Quente, Jaqen H’ghar, Lorde Beric e seus seguidores, Cão de Caça e por fim o homem do templo. Ela confiava neles? Em alguns, óbvio que não, em outros talvez.


Mas ela não estava sozinha. Arya teve ajuda o tempo todo, mesmo que vários de seus companheiros só estivessem com ela para alcançar seus próprios objetivos. E ainda assim ela age como se tudo e todos fossem feitos apenas para servi-la e quando essas coisa/pessoas não a servem, o máximo que ela pensa é “eu não precisava disso mesmo” quando é óbvio que ela precisava sim. É como se Arya estivesse tentando dar uma de durona, mas continuasse a agir como uma garotinha o tempo inteiro.

Não me entenda errado, eu respeito muito a Arya pelo que ela passou, o que não foi moleza nenhuma, nem de longe. Mas sua personalidade se torna tão convencida e furiosa que não consigo mais simpatizar com ela como simpatizava no livro um. Ela tinha que mudar? Claro que sim. Para sobreviver, todo mundo nessa série tem que se adaptar às novas situações. Arya, porém, mudou de um jeito que não me agradou em nada. Aliás, boa parte dos seus capítulos me pareceram uma enrolação horrorosa para mantê-la ocupada enquanto o que quer que Martin tenha planejado para ela ainda não esteja na hora de acontecer. Talvez alguma coisa tenha se perdido no meio do caminho, não sei. O fato é que Arya Stark não me convence mais.

Não faço ideia do que vai acontecer com ela nos próximos livros e, sinceramente, mal consigo me importar também. Só espero que ela faça algo digno antes do final. Isso é tudo, basicamente. Sei que Arya é muito esperta, e pra mim ela ainda vai resgatar Agulha para fazer algo importante.

Bem, é isso. Espero que tenham gostado (e se discordam, nada de pedras, por favor, embora um debate seja bem vindo). Qualquer coisa é só me contatar pelos comentários/ask do Tumblr.

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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Resenha #11 - As Crônicas de Gelo e Fogo, George Martin

Hoje a resenha será um pouco diferente. Ou melhor, será como a de PJO que fiz há algum tempo: cinco livros em único post. 

Acredito que todos já saibam mais ou menos o enredo da série As Crônicas de Gelo e Fogo (ASOIAF). Mas, para aqueles que não sabem, farei um resumo pequeno. O único spoiler que dei nessa matéria está sinalizado, então não tem problema algum ler se você ainda não terminou o livro cinco.

ASOIAF é uma série um tanto diferente das demais por não possuir um personagem principal certo. No primeiro livro nos é apresentada principalmente a Casa Stark, tendo seu chefe, Eddard Stark, como Protetor do Norte. Ned, como também é conhecido, é convidado pelo rei Robert, seu velho amigo, para ser sua Mão após a morte da última, Jon Arryn. A Mão do Rei é basicamente quem governa o reino quando o rei não está muito afim de cumprir sua função. Com a suspeita de que Jon Arryn foi assassinado por saber algo que não devia, Ned parte para o sul com duas de suas filhas, Arya e Sansa.

Paralelo ao que acontece com a Casa Stark, acompanhamos também Daenerys Targaryen e seu irmão, Viserys, filhos do Rei Louco Aerys, que foi deposto por Robert em sua rebelião. Os dois escaparam para Essos, o outro continente do mundo de ASOIAF, e vivem lá desde então. Por se considerar herdeiro legítimo do Trono de Ferro dos Sete Reinos (e ele de fato é), Viserys “vende” sua irmã para Drogo, um Khal (algo como rei) entre os dothrakis, um povo visto como selvagem por muitos, em troca de um exército para reconquistar o que considera como seu por direito.

E além disso tudo (sim, é muita coisa), temos os rumores do reaparecimento Outros, que quase dizimaram os humanos há milhares de anos atrás, quando a Longa Noite, um inverno que durou décadas, veio. Agora que o inverno está chegando mais uma vez, os caminhantes brancos se levantam além da Muralha e têm somente uma fraca sombra do que já foi a Patrulha da Noite, uma ordem de homens juramentados a proteger os reinos dos homens, como adversário. Ou seja, Westeros é como um barril de pólvora prestes a estourar.

Eu li o primeiro volume de ASOIAF lá em 2010, quando a série da HBO mal havia começado, e confesso que não gostei muito. Acho que na época eu não tinha, sei lá, amadurecido o suficiente para gostar de uma história tão cheia de picuinhas, jogos políticos e traições como ASOIAF é. Para falar a verdade, eu estava muito habituada à alta-fantasia para me acostumar ao universo de baixa-fantasia que Westeros aparentava ser. Acredito que o fato de que tinha gente (bem, ainda tem) falando que Martin era o Tolkien americano contribuiu um pouco para minha cisma com essa história. Todo mundo sabe que sou fã incondicional de Tolkien e de seus livros, e até hoje me recuso a incluir os dois “r” no nome do Martin por motivo de princípios.

Em 2011 decidi reler a história, mais por causa do final mesmo. Pra mim, o primeiro livro ainda é o melhor, e seus últimos capítulos são perfeitos. Enfim, continuando, para minha surpresa, eu adorei a história na minha segunda lida. Já estava mais acostumada com o ambiente, por assim dizer, e admito que hoje essa mistura entre baixa e alta-fantasia é meu tipo preferido de literatura fantástica.

Os pontos fortes de ASOIAF são, sem dúvida, os personagens. Eles são diversos, diferentes, complexos e únicos, e mesmo que você não goste de um, com certeza irá identificar um ou dois traços de sua personalidade ou história que fazem com que você tenha o mínimo de simpatia pelo personagem. É, aliás, meu caso com Cersei, Jaime, Arya e Jon Snow, e desses últimos dois já confesso ter gostado mais, mas isso explico mais tarde.

Outra coisa de que gosto muito em ASOIAF é a escrita. Alguns reclamam que é muito descritiva/densa/sei lá, mas esse tipo de narrativa é, sem dúvida, minha preferida. Eu /amo/ livros descritivos. Só isso já o coloca vários pontos acima da média da maioria das obras que leio.

Uma sacada muito boa do Martin também foi colocar a magia como algo bem fraco no início, ampliando-a com o passar dos volumes. Essa abordagem acabou por fazer o leitor se conectar ainda mais com os acontecimentos, já que podemos nos identificar com um mundo aparentemente sem coisas fantásticas (bom, pelo menos sem coisas fantásticas no presente) que vai, aos poucos, se revelando um lugar cheio de magia, sendo esta frequentemente obscura. Isso deu um ar de “epicidade” incrível para a série.

Agora que já expus porque gosto tanto de ASOIAF, vou explicar o que a faz não ser minha saga preferida. Hora dos pontos negativos.

Primeiro, cadê o maldito inverno? Ele estava chegando no um, supostamente, mas no quinto ele está apenas começando a se instalar, ainda se mesclando com o outono. E isso em cinco livros, todos com mais de seiscentas páginas, pelo amor de Deus. A previsão é de sete volumes, ou seja, só temos mais dois para ver a coisa pegando fogo (ou frio, sei lá) e eu ainda sinto como se estivéssemos no início da história. Mesmo depois de cinco livros-tijolos. Tipo????

Segundo, haja enrolação. No quinto livro principalmente. Os acontecimentos se arrastaram à passo de lesma e, sinceramente, A Dança dos Dragões se tornou o volume mais fraquinho justamente por isso. [SPOILER PARA QUEM NÃO LEU O LIVRO 5] E pra que diabos o Quentyn existiu, hein? Eu fiquei tão empolgada no fim do quarto por causa da vingança de Dorne, aí vem o quinto e me faz uma miséria dessa. Me decepcionei profundamente. [FIM DOS SPOILERS] É a mesma coisa que mencionei no parágrafo anterior; ainda me sinto como se a história estivesse começando. Daenerys não está nem perto de Westeros, pelo anjo.

Terceiro, eu não consigo me apegar mais aos personagens, por dois motivos. Um, eles morrem toda hora. Ok, isso era foda no início, mas agora? Estou tão acostumada que pra mim tanto faz como tanto fez. Três quartos dos personagens podem morrer e eu no máximo bocejaria. Dois, muitos se tornaram insuportáveis. Eu amava a Daenerys, adorava a Arya e Jon Snow era decididamente meu favorito. Eu ainda gosto das definições deles, sabe? Tipo, a menina que foi vendida pelo irmão mais velho e se tornou a mãe dos primeiros dragões em sabe se lá quantos anos, a garota que sempre recebeu xingamentos e pirraças porque era diferente e não queria ser uma senhora, o menino bastardo que cresceu sabendo que acabaria sendo deixado de lado e ingressou na lendária patrulha que protege o reino dos homens… Falando assim, eu os adoro. Mas nos livros, nos capítulos deles? Jon Snow me mata de tédio, Arya se tornou uma bolinha de fúria convencida e Daenerys faz umas burradas que só de ler tenho vontade de jogar o livro pela janela e fingir que aquela garota super legal do livro um ainda existe.

É por isso que meu personagem preferido é a Sansa. Eu a odiava no livro um, mas agora ela é absolutamente a melhor de todos pra mim. Veja bem, a maior parte dos outros personagens tenta desesperadamente se convencer de que é forte. Cersei diz para si mesma que é uma leoa e que pode governar, mas só faz burrice. Arya vive pensando que não precisa de ninguém, mas obviamente precisa. Daenerys fica só no “sou do sangue do dragão” e se faz de rainha, mas continua cometendo as mesmas infantilidades e colocando tudo a perder. Sansa não. Sansa sabe que não é nadinha no jogo dos tronos e ao invés de fingir ser algo mais, ela aceita e presta atenção. Ficarei incrivelmente decepcionada se ela não se tornar a Rainha no Norte e colocar todo mundo pra correr.

Tem outras coisas que me irritam, como a insistência que o povo com mais idade tem de dizer que os mais jovens são “[insira coisa aqui] do verão”, com um toque de condescendência. Isso me irrita demais. Parece sermão de velho. Óbvio que eles são do verão, eles são jovens! E esses velhos um dia foram do verão também, e só se tonaram maduros e sabe lá mais o quê com o passar do tempo. Pra que cobrar isso de quem não passou pela mesma coisa ou vê-los como inferiores/bobos? Não faz sentido algum. Eu mesma me sinto ultrajada no lugar dos personagens do verão, que são, em sua maioria, aliás, os únicos fazendo essa guerra girar.

Enfim, é melhor parar antes de eu sair fazendo um monólogo de vinte páginas. Eu adoro ASOIAF, mas essas falhas me impedem de realmente amar a saga como amo A Crônica do Matador do Rei e O Senhor dos Anéis. De qualquer modo, são livros incríveis e eu recomendo para absolutamente todo mundo. Quanto à série da HBO, adoro a primeira temporada, odeio a segunda e ainda não assisti a terceira. Acho que é só isso.
(4.5, na verdade, mass)

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terça-feira, 22 de outubro de 2013

Dicas de Escrita #02 - Como não iniciar sua história

Todo mundo já percebeu uma ou duas cenas, pelo menos, que parecem abrir uma boa parte das histórias de hoje, principalmente das postadas na internet. Esses tipos de início desanimam o leitor quase imediatamente e causam aquela conhecida sensação de “já vi isso antes”. É claro que você pode usá-los para iniciar sua história, mas eu só aconselharia se você as escrevesse de um modo diferente, não-usual. Seu objetivo, ao digitar as primeiras linhas de sua história, é atrair a atenção do leitor, e não fazê-lo pensar que está lendo mais uma história previsível e cliché. Abaixo listei algumas das cenas mais comuns em livros e webs que já vi por aí. Mais uma vez repito: é claro, óbvio, que você pode usá-las. Afinal, a história é sua. Mas que vai causar um franzir de cenho em algumas das pessoas que a lerem, ah, isso vai.

  • Seu personagem está acordando. Pode ser após um sonho. Pior ainda se tiver escola em pouco tempo e/ou ele estiver atrasado. Geralmente esse tipo de início acaba levando o personagem a “fazer suas higienes”. Poucas coisas matam mais a vontade do leitor de continuar do que ler “fiz minha higiene matinal” logo no início (ou em qualquer parte).
  • Espelho, espelho meu. Seu personagem se descreve olhando o próprio reflexo no espelho. Geralmente não gosta do que vê. Geralmente é muito magro. Talvez pálido. Provavelmente com olheiras. Ou o completo contrário; o personagem adora o que vê, sua pele e cabelos são perfeitos e ele está em forma. Pode ser que comece a refletir sobre a vida; um plot device do autor para informar ao leitor o passado e a história do personagem em questão. Obs: pode vir com o combo primeiro dia de aula e/ou sou novato na escola.
  • Recém-órfão. Seu personagem acabou de perder os pais em um acidente terrível e agora tem que se mudar para uma cidade do interior onde ficará com os tios/vós/whatever. E então a) encontrará o possível amor de sua vida na tal cidade, apesar de todos os problemas e angst que enfrenta, ou b) descobrirá ser uma criatura mística.
  • "Eu odeio cada minuto disso." Pode ser seu personagem chegando na nova casa (que, obviamente, ele odeia), pode ser seu personagem tendo que ir passar o verão na casa da avó (que, provavelmente, é um fim de mundo que ele também odeia), pode ser ele chegando na escola onde só babacas estudam (ele, lógico, é o único não-babaca) e pode vir com reflexões infindáveis sobre os problemas e a vida do personagem. Seu protagonista é, na verdade, uma bolinha de fúria nas primeiras páginas.
  • Jornal do tempo. Eu acho que é o menos grave de todos os inícios clichés. Geralmente é só o personagem/narrador descrevendo o tempo no momento em que a história começa. É quase inofensivo, eu acho, mas a maior parte das pessoas não pensa desse jeito.
  • Conhecendo a família/amigos e também os inimigos. Seu personagem descreve absolutamente tudo sobre todos os seus amigos e familiares nas primeiras páginas. Depois é a vez dos “inimigos” ou pelo menos rivais. É praticamente um desfile. 


Esses são os inícios clichés que consigo pensar no momento. Há outros, é claro, mas esses são os principais. Se for mesmo usar qualquer um dos listados acima, tente, como eu disse, fazer dele algo novo. Narre de um jeito diferente, não sei, dê seu próprio toque. Lembre-se que os clichés são clichés por um motivo: o povo gosta, apesar de tudo. Só não precisa fazer exatamente igual a centenas de outras histórias, obviamente.

Bem, é isso. Espero que tenham gostado. Qualquer coisa é só comentar ou ir na ask do Tumblr. Fui.
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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Dicas de Escrita #01 - Bloqueio de Escritor

Nem preciso dizer que todo escritor já passou por isso, certo? É bastante comum e alguns, como eu, são amaldiçoados constantemente por essa momentânea incapacidade de colocar as palavras no papel. Há zilhões de dicas de como superar o bloqueio de escritor espalhadas pela internet, e eu mesma já fiz várias matérias sobre isso em outros blogs, mas para esse post decidi fazer algo mais pessoal e, quem sabe, realista.

A primeira coisa que você tem que fazer se quer superar o bloqueio de escritor é se perguntar o porquê de você estar com ele. Sempre há um motivo, por mais simples e subtendido que seja. Problemas na escola ou em casa, por exemplo, podem afetar bastante sua capacidade de escrever. Para mim, o que mais alimenta o bloqueio de escritor, no entanto, é a preguiça e a falta de planejamento.

É muito mais fácil escrever quando se sabe o que está acontecendo e (principalmente) o que vai acontecer nos próximos parágrafos. Você pode até demorar um pouquinho mais em uma frase ou outra, mas sabe com toda certeza para onde está levando sua história. O bloqueio de escritor, na maioria das vezes, chega quando esse terreno conhecido acaba e você se vê em uma encruzilhada, sem saber para onde levar a história até chegar até aquele outro ponto que você já planejou. Esses “buracos” são conhecidos por muitos nomes; brechas, filers, falhas, etc, e uma das maiores dificuldades de todo escritor é construir as pontes por cima deles.

Veja se você não se reconhece: seus personagens acabaram de fazer algo importante - sei lá, resgataram a princesa - e agora têm como missão levá-la de volta para o seu reino. Eles escapam do castelo do dragão e então param. Certo, mas e como levá-los até o reino da princesa? Você não planejou essa parte. Em sua mente (ou em suas anotações) só havia algo do tipo, “eles matam o dragão, fogem do castelo e entregam a princesa ao pai dela, fim.”

Isso é um buraco, uma falha, e é seu dever construir uma ponte por cima dela, o que, convenhamos, geralmente não é uma tarefa fácil. Você pode se pegar olhando fixamente os últimos parágrafos que escreveu, tentando pensar em algo, qualquer coisa, mas nada sai e, frustrado, você rapidamente abre a aba do Tumblr no seu navegador e passa a próxima hora sem nem lembrar que sua história existe. Mas então você volta ao arquivo, olha de novo para os últimas linhas, não consegue pensar em nada e, mais uma vez, vai para o Tumblr ou a qualquer outro site. Mais tarde, você provavelmente vai dizer para alguém, ou até para si mesmo, a famosa frase “não saía uma palavrinha sequer!”

Qualquer coisa parece ser mais fácil do que construir a maldita ponte. Então você se entrega à procrastinação e, voilà, bloqueio de escritor (ou pelo menos um dos seus tipos).

É difícil superar essas brechas. Alguns dizem que ouvir música ajuda e eu concordo em partes. É bom ouvir músicas para se inspirar, para imaginar novas cenas ou desenvolver antigas, mas, na hora de escrever, aconselho o completo silêncio e a eliminação de qualquer tipo de distração - sua querida wi-fi, por exemplo, é a maior vilã. Ouça música antes, veja um filme antes ou leia um livro antes. A solução pode cair do céu (se você for sortudo) ou não. Se não cair,  pregue o traseiro na cadeira e encare o Word em branco mesmo. E, acima de tudo, se force a pensar.

Procrastinação é a maior inimiga do escritor, principalmente aliada à wi-fi. Não procrastine. Ou melhor, fuja das distrações como o diabo foge da cruz. Seu livro não vai se escrever sozinho.

Se pensar não funcionar e a ponte ruir, pule o buraco. Escreva o que você sabe que vem depois; lembre-se que, por mais que sua história seja cronológica, o processo de escrita dela pode não ser. Se não ficar como você quer, lembre-se também que é seu primeiro draft. E, como dizem por aí, você pode editar uma página mal escrita, mas editar uma página em branco é impossível. 

De qualquer modo, não pare de escrever. Nem mesmo que seja um diário. A escrita é como um músculo; você só fica bom exercitando-o. Nada de ficar parado.

Bem, é isso. Esperam que tenham gostado dessa primeira dica de escrita do AP. Qualquer dúvida ou sugestão, é só me deixar um comentário. Fui.
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domingo, 20 de outubro de 2013

Resenha #10 - O Espadachim de Carvão, Affonso Solano

Título: O Espadachim de Carvão
Série: -
Autor: Affonso Solano
Fantasy - Casa da Palavra
Filho de um dos quatro deuses de Kurgala, Adapak vive com o pai em sua ilha sagrada, afastada e adorada pelas diferentes espécies do mundo. Lá, o jovem de pele absolutamente negra e olhos brancos cresceu com todo o conhecimento divino a seu dispor, mas consciente de que nunca poderia deixar sua morada. Ao completar dezenove anos, no entanto, isso muda. Testemunhando a ilha ser invadida por um misterioso grupo de assassinos, Adapak se vê forçado a fugir pela vida e se expor aos olhos do mundo pela primeira vez, aplicando seus conhecimentos e uma exótica técnica de combate na busca pela identidade daqueles que desejam a morte dos Deuses de Kurgala.

Sempre procuro olhar livros brasileiros de fantasia de um modo diferente. Não por preconceito ou algo do tipo, mas sim porque eu mesma quero seguir o ramo e publicar minhas histórias um dia. Mas, até alguns anos atrás, era meu costume ignorar esses livros – na verdade, eu sequer sabia que eles existiam. O boom que a literatura nacional para jovens é bem recente e, na sinceridade, se resume, quase sempre, aos livros da Fantasy.

Mesmo assim, já tenho uns cinco autores brasileiros na minha estante, e devo dizer que somente um realmente me agradou. Por isso, durante meses e meses, evitei O Espadachim de Carvão com medo de não gostar e depois ficar lamentando o dinheiro perdido. Mas então, alguns sábados atrás, o Solano esteve aqui em Salvador e eu pensei, bem, por que não aproveitar e comprar o livro (e ainda descolar um autógrafo)?

Li o livro em um dia, praticamente. É bem curtinho, 255 páginas. E, apesar de não me arrepender de tê-lo comprado, não posso dizer que fico muito feliz por tê-lo feito.

O Espadachim de Carvão teve, de modo geral, dois problemas.

Primeiro, ele é muito curto. E não, não é nada do tipo “ah, livro de fantasia tem que ser longo mimimimi”. Nada disso. É que simplesmente não deu tempo de desenvolver os personagens. Adapak é quem mais muda, já que vai descobrindo que o mundo não é um lugar tão perfeito assim, mas mesmo sua jornada como personagem é quase imperceptível. A gente não chega a sentir ele se desenvolvendo, e fica algo mais dito do que mostrado. Aliás, essa é até uma crítica à escrita do Solano; às vezes ele diz demais na hora em que deveria mostrar e o resultado acaba incomodando um pouco. De resto, achei sua escrita simples, nada incrível, mas boa mesmo assim.

O segundo problema foram os diálogos.

Aliás, esse é um problema de praticamente todos os novos escritores brasileiros que ando lendo por aí. É algo bizarro. Não sei se tem meu gosto pessoal envolvido, mas um bom diálogo, para mim, é aquele que consegue exprimir bem sentimentos/emoções/estados de espírito sem precisar de ajuda estética, como caps lock ou itálico, e O Espadachim de Carvão tem muito disso. Muito mesmo. Na minha opinião, os diálogos foram a pior parte do livro, praticamente a única coisa que me irritou de verdade.

E, não posso deixar de dizer, esses mesmos diálogos serviram para muitos infodumps, ou seja, para nos informar sobre mundo de Kurgala. É claro que usar o diálogo foi uma ideia muito melhor do que sair explicando durante a narrativa, mas ficou algo na cara demais. Tipo, sei que algumas cenas foram colocadas para nos ajudar a entender as coisas (o que é compreensível, já que toda cena de worldbuilding têm que servir pra isso), mas me senti naqueles animes antigos em que os personagens perguntam coisas óbvias só para nos informar o que está acontecendo. Poderia ter sido algo mais sutil.

A lâmina de osso despertou com um silvo ao deslizar no forro da bainha, implorando para que sua superfície perfeitamente branca logo fosse maculada. Um terceiro baque agora destruía completamente o que antes era a janela do aposento, abrindo um rombo grosseiro para o mundo exterior.
Um deles entrou.

Quanto à história, eu gostei. Não foi algo sério e épico, mas serviu bem para entretenimento e o final, apesar de um pouco corrido, se encaixou na trama sem muitos trancos e barrancos. A maior parte dos personagens ficou muito superficial, infelizmente, e nenhum fez com que eu me conectasse à história de fato.

O Espadachim de Carvão não é um livro ruim. É agradável, então indico para quem quer passar uma tarde lendo algo sem muito compromisso. Acredito que a sequência, que será lançada ano que vem (pelo o que ouvi dizer), será melhor e desenvolverá mais os personagens, porque, sinceramente, O Espadachim de Carvão me passou a ideia de amadorismo demais. Não sei. A ideia da história é boa sim, e dava para fazer algo melhor, acredito.

PS: Já ia me esquecendo, mas dá-lhe exclamações. Algum escritor já disse (não lembro nem o que comi hoje, quanto mais o nome do homem) que uma exclamação por vida já tá bom o bastante e, apesar de esse ser um exagero (obviamente), uma ou duas exclamações por livro deveriam ser o limite. É sério.

PS2: O mundo de Kurgala realmente me agradou. É bem original, com espécies diferentes. Me fez lembrar de Star Wars, sabe-se lá porquê.

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sábado, 19 de outubro de 2013

Resenha #09 - Gravidade

Matt Kowalski (George Clooney) é um astronauta experiente que está em missão de conserto ao telescópio Hubble juntamente com a doutora Ryan Stone (Sandra Bullock). Ambos são surpreendidos por uma chuva de destroços decorrente da destruição de um satélite por um míssil russo, que faz com que sejam jogados no espaço sideral. Sem qualquer apoio da base terrestre da NASA, eles precisam encontrar um meio de sobreviver em meio a um ambiente completamente inóspito para a vida humana.

Gravidade foi um filme que quase me fez passar mal.

Não, não foi um filme ruim. O problema foi exatamente o oposto: Gravidade é bom demais.

Eu nunca tinha me dado conta do quanto o espaço pode ser aterrorizante e nem que um lugar tão grande (infinito?) pudesse ativar minha quase-claustrofobia tão intensamente. Nos primeiros minutos do filme, em que nada havia acontecido ainda, eu já estava sentindo minha cabeça girar. É sério. Depois disso quaisquer fantasias que eu tinha com a ideia de ficar em um lugar sem gravidade/ir pro espaço viraram cinzas.

A grande sacada de Gravidade foi o modo com que o filme foi dirigido. Eu não sou nenhuma técnica no assunto, mas o diretor Alfonso Cuarón foi muito feliz em sua escolha de fazer cenas longas sem corte, mostrando bem a imensidão que é o espaço. As cenas com o foco na Terra vista lá de cima também são incríveis, e a trilha sonora foi, sem dúvida, a melhor do ano até agora. Mas o que realmente me conquistou nesse filme foi o uso do som - ou melhor, da falta dele.

O silêncio pode ser algo desesperador. Eu nunca tinha me dado conta disso até assistir enquanto Ryan Stone (Sandra Bullock) girava à deriva no espaço, com somente o som da sua respiração a cortar a quietude. Foi, sinceramente, onde Gravidade me pegou. Eu quase tive que sair da sala para recuperar o fôlego. A situação de Ryan era tão tensa que a coisa toda começou a me afetar mesmo. Meus nervos foram parar na estratosfera e então se pulverizaram completamente.

Bullock interpretou muito bem sua personagem, a Ryan, e até posso culpá-la por boa parte dos nervos pulverizados. As emoções dela foram mostradas de modo excelentes, e a conexão com o público foi total. O mesmo pode ser dito de George Clooney no papel de Matt Kowalski, que serviu um pouco de alívio cômico, porque sinceramente, o filme todo é tão…, sei lá, à beira de um ataque de nervos que se não fosse pelas piadas/histórias engraçadas do Matt a coisa toda ia acabar ficando pesada demais. 

Enfim, recomendo Gravidade para quem gosta de filmes que te deixem na ponta da cadeira. É também uma boa opção para fugir um pouco da histórias sempre tão iguais de Hollywood. Realmente gostei, mas não sei se repetiria de novo porque meus queridos nervos não são de aço. A única coisa que me incomodou foi o final, que ficou um pouco corrido, mas tirando isso o resto foi perfeito. Então quatro asinhas para Gravidade.


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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Resenha #08 - O Olho do Mundo, Robert Jordan

Título: O Olho do Mundo (The Eye Of The World)
Série: A Roda do Tempo (The Wheel Of Time)
Autor: Robert Jordan
Intrínseca
Um dia houve uma guerra tão definitiva que rompeu o mundo, e no girar da Roda do Tempo o que ficou na memória dos homens virou esteio das lendas. Como a que diz que, quando as forças tenebrosas se reerguerem, o poder de combatê-las renascerá em um único homem, o Dragão, que trará de volta a guerra e, de novo, tudo se fragmentará.
Nesse cenário em que trevas e redenção são igualmente temidas, vive Rand al’Thor, um jovem de uma vila pacata na região dos Dois Rios. É a época dos festejos de final de inverno – o mais rigoroso das últimas décadas -, e mesmo na agitação que antecipa o festival, chama a atenção a chegada de uma misteriosa forasteira.
Quando a vila é invadida por Trollocs, bestas que para a maioria dos homens pertenciam apenas ao universo das lendas, a mulher não só ajuda Rand e seus amigos a escapar dali, como os apresenta àquela que será a maior de todas as jornadas. A desconhecida é uma Aes Sedai, artífice do poder que move a Roda do Tempo, e acredita que Rand seja o profético Dragão Renascido, aquele que poderá salvar ou destruir o mundo.

Dizer que eu estava ansiosa para ler O Olho do Mundo é pouco. Desde que decidi dar uma pausa na minha história para ler livros de fantasia e, desse modo, conhecer a área, o nome (pseudônimo, na verdade) de Robert Jordan começou a pipocar em todos os cantos, assim como o de sua série, A Roda do Tempo. Soube bem no início desse ano que uma editora minúscula e desconhecida tinha publicado o livro há um tempinho, mas desanimei para comprar o primeiro e o segundo volume por pensar que nunca iriam trazer o resto da série pro Brasil. Então, comecei a ler em inglês a passos de tartaruga, mas parei assim que soube que a Intrínseca iria publicar novamente O Olho do Mundo. Comprei-o mais rápido possível assim que ele saiu, e aqui estou eu para (finalmente) contar o que achei.

Eu adoro essas fantasias mais antigas, para falar a verdade. As novas geralmente deixam um pouco a desejar na construção de mundo e uma boa parte se torna uma adaptação do universo de O Senhor dos Anéis. Não que O Olho do Mundo não tenha algumas semelhanças com os trabalhos de Tolkien (notei várias), mas, apesar de possuir o mesmo clima, até que consegue se diferenciar bem e ter um espírito próprio.

Uma coisa da qual gostei mesmo foi da “mitologia” do mundo em que a história se situa. Pelo que eu entendi, a Roda do Tempo tem sete Eras, que giram e são “remodeladas” cada vez que completam o ciclo, tecendo o Padrão. A fonte de magia é chamada de Fonte Verdadeira, e é dividida em duas, a parte feminina, saidar, e a masculina, saidin, e aqueles que conseguem usar o Poder são chamados de Aes Sedai. Até a Era das Lendas, tudo funcionava muito bem, mas havia o Tenebroso, o Pai das Mentiras, o Pastor da Noite, ou, simplesmente, Shai’tan, o Destruidor, que ameaçava a Luz. Foi Lews Therin Telamon, o Dragão e um Aes Sedai, quem o aprisionou em Shayol Ghul, além da Praga, e assim salvou a humanidade. Porém, Shai’tan conseguiu macular a parte masculina do Poder, saidin, e levou todos os homens Aes Sedai à loucura. Tomados pela insanidade, esses homens levaram a destruição à todos os cantos e causaram a Ruptura do Mundo. Lews Therin, o Dragão, foi o pior e mais poderoso entre eles.

O Mangra-folha quer cegar o Olho do Mundo, Perdido. Ele quer matar a Grande Serpente. Avise o Povo, Perdido. O Queima-vista está chegando. Diga a eles que se preparem para Aquele Que Vem Com a Aurora. Diga a eles…

A história de O Olho do Mundo se passa três mil anos após esse período, que ficou conhecido como Tempo da Loucura. Atualmente só existem Aes Sedai mulheres, que vivem em Tar Valon, e são as únicas capazes de “amansar” os homens que podem usar o Poder, impedindo-os de causar outra Ruptura. E é nesse mundo que vivem nossos personagens principais, Rand, Mat e Perrin.

Uma coisa que me frustrou muito durante a leitura desse primeiro volume foi a falta de respostas. Chegamos ao último capítulo sem saber muita coisa sobre os três personagens principais (dá pra imaginar uma coisa ou outra, mas não há nada concreto) e uma boa parte do meio se arrastou sem uma revelaçãozinha sequer. Mas estou disposta a perdoar isso, já que O Olho do Mundo é o primeiro de catorze livros, então estou encarando-o mais como uma introdução mesmo. Nenhum personagem, infelizmente, conseguiu me prender de verdade. No máximo o Rand, o Lan ou o Mat, mas como já ouvi que eles melhoram e crescem muito nos próximos volumes, estou tranquila quanto a essa parte.

Outra coisa que me incomodou foi o Ba’alzamon, Shai’tan ou, simplesmente, o Tenebroso, o vilão da história. Ele não me convenceu nem um pouquinho sequer. Nem uma vírgula. Todas as suas aparições não me causaram nada além de enfado, mas enfim, é melhor torcer para que isso mude nos próximos livros. A escrita de Jordan é muito boa, superior a muitas que vejo por aí, mas eu esperava mais detalhes e mais descrições. Mas isso é mais questão de gosto do que de qualidade, então prossigamos.

Fazendo uma pequena observação, muitos dizem que George Martin é o “Tolkien americano”. Eu discordo em gênero, número e grau, já que acho que As Crônicas de Gelo e Fogo não são nem um pouco semelhantes a O Senhor dos Anéis. Se for para escolher alguém para ser o “Tolkien americano”, eu voto no Robert Jordan.

Indico O Olho do Mundo para quem gosta de um bom livro de fantasia, que apesar de grosso não possui tantas descrições e detalhes assim, tendo uma leitura fácil e personagens que prometem muito para os próximos volumes. Também peço que encare esse livro como uma introdução, já que a parte realmente boa, aparentemente, está por vir. 

Ah, ia me esquecendo: encomendei esse livro na Cultura, e ele chegou meio acabadinho. Só deixando minha frustração com a livraria em algum lugar. Ok, peguei o frete mais barato que existia (pagar 30 reais de frete em um livro que custa quase 50 não rola, né?), mas ele veio riscado atrás e com o plástico (aquele bem fininho que fica descascando) já saindo nas pontas. Até a serpente da capa não está tão dourada quanto na imagem aí de cima.

Enfim, se for possível prefiram comprar na livraria física para evitar isso. Meh.

Mas para não ser injusta com a Intrínseca eu tenho que falar que a edição está perfeita. As páginas são excelentes, as gravuras no início de cada capítulo são lindas e não encontrei erro nenhum no texto. Nesse quesito a editora está de parabéns, sério. É um livro tão bonito que dá vontade de ficar com ele em tudo quanto é canto.


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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Resenha #07 - Cidade dos Ossos, filme.

Quando assisti o filme de Cidade dos Ossos pela primeira vez confesso que me surpreendi bastante. Não esperava tanto, para ser sincera. Depois de tantas resenhas ruins e comentários raivosos, já tinha colocado na cabeça que esse filme seria um dos piores do ano. Bem, eu estava errada.

Isso é o que acontece quando você lê resenhas feitas por quem não sabe direito do que está falando. E não, eu não estou dizendo que você está errado em não gostar do filme. Você tem esse direito, obviamente, desde que seu julgamento não seja preconceituoso. A grande mídia aí fora está pronta para estraçalhar qualquer filme Young Adult simplesmente por não compreender o gênero e desprezá-lo sem nem mesmo de lhe dar uma chance. E isso é errado. (Aconselho ler a resenha do livro antes. Ela pode ser encontrada aqui).

Bem, vou explicar melhor.

Pense por um momento: quantos filmes de perseguição de carros ou sobre uma dupla de policiais você já viu por aí? Quantos sobre a invasão da Casa Branca? Quantos filmes de super heróis que parecem exatamente a mesma coisa?

Aposto que foram vários.

Agora pense de novo: quantos filmes Young Adult com temática sobrenatural você já viu?

Crepúsculo. Percy Jackson. Dezesseis Luas. A Hospedeira. Cidade dos Ossos agora, Divergente e The Maze Runner ano que vem.

E só.

O público para esses filmes YA sempre existiu, mas ninguém nunca prestou atenção nele. Foi só quando Crepúsculo explodiu que os diretores por aí se deram conta do grande mercado ansioso por coisas novas que vinha sido deixado de escanteio. E que pessoas fazem parte deste nicho? Em sua maioria, garotas adolescentes.

E, sinto muito em dizer, se você é uma garota e ainda por cima é uma adolescente, Hollywood está pouco se lixando para você.

Fazer filmes repetitivos sobre explosões, perseguições, mocinhos musculosos e seus pares românticos deslumbrantes e sensuais é considerado certíssimo, mesmo que essas obras não possuam originalidade nenhuma. O porquê é simples: o público alvo aqui são homens, adolescentes ou não, e são os homens quem comandam a indústria cinematográfica. Os ditos “filmes para mulheres” sempre foram considerados de segunda categoria, e quando a história se volta para uma garota com seus dezesseis anos, a coisa toda só piora.

É por isso que tantos críticos por aí começaram a dizer que Cidade dos Ossos é uma cópia de Crepúsculo. Para eles, os dois se encaixam na categoria “filmes para mulheres” e por isso não prestam; se tem uma protagonista feminina com menos de vinte anos, acontece algum romance e existe pelo menos uma criatura sobrenatural, a cova está pronta e a pá já à disposição.

Agora quando o filme estrela um garoto considerado “loser” pela maioria dos seus colegas que de repente se transforma em um herói, todo mundo senta e aplaude, mesmo esse sendo o plot inicial de uma boa parte dos filmes de super-heróis por aí. E neles os interesses românticos são basicamente a mesma coisa: ou garotas super espertas ou garotas indefesas e/ou sensuais. Raras são as vezes em que estereótipo muda e mais ainda as em seus personagens são realmente desenvolvidos. Mas por que ninguém reclama? Simplesmente porque esse tipo de plot dá uma amaciada básica no ego da maior parte dos homens por aí.

Não, eu não achei Cidade dos Ossos o melhor filme do ano nem nada do tipo. É um filme bom, com cenas de ações excelentes, mas que perdeu o ritmo em alguns momentos e meio que apagou a personalidade de alguns personagens em outros. A soundtrack foi muito boa mesmo na maior parte do tempo, mas em certas situações foi a coisa mais wtf que já vi na vida e tornou as cenas pra lá de bregas. 

No total, vale a pena e é divertido.

Não tem NADA a ver com Crepúsculo. Nadica, nothing, neca de pitibiriba. O clima é completamente diferente, os personagens são diferentes, a história é diferente… Mas simplesmente porque se trata de uma garota adolescente em seu mundo sobrenatural que por acaso tem um par romântico, todo mundo já torce o nariz.

Espero sinceramente que façam Cidade das Cinzas. Estou cruzando os dedinhos para que isso aconteça. Cidade dos Ossos foi uma surpresa mais do que agradável, e que merece um pouco mais de atenção.


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Diário de Bordo #02 - O Dilema das Minorias

Mais reclamações a caminho. 

Minorias em livros de fantasia são um inferno. Não porque eu não ache que elas não deveriam estar neles, mas por vários outros fatores e consequências de sua inclusão, principalmente aqui no Brasil.

Para falar a verdade, eu não sabia que existia todo um fuzuê para se colocar POCs (person/people of color ou não-brancos) em qualquer tipo de livro até que achei a comunidade de língua inglesa do Tumblr. Obviamente, entrei em pânico pensando que não tinha POCs em Aëssya e só fui me dar conta de que existe todo um reino POC em Arzanael dias depois, simplesmente porque estava acostumada com o que é normal para a gente aqui do Brasil (ou pelo menos da Bahia, vai saber né) e não com o que é lá fora. Nos EUA/Europa, o branco é maioria na maior parte das regiões, mas aqui em SSA, por exemplo, tem muito mais mulato/negro do que branco. Então eu não tinha me dado conta de que Anaruen era um reino de mulatos/morenos porque esse é o padrão pra mim. Faz sentido?

Para você ver o que a afobação faz com uma pessoa.

E eu mesma sou uma POC, já que sou latina. Mesmo sendo branquela. E aqui no Brasil o racismo nem é tão tenso quanto é nos EUA/Europa, graças a Deus.

Enfim, não é exatamente essa questão da minoria que me preocupa. É a de outra minoria, a de LGBT e afins. A maior parte das obras de fantasia hoje em dia possuem pelo menos um personagem homossexual/bissexual, principalmente se for de fantasia urbana, como Os Instrumentos Mortais. As Crônicas de Gelo e Fogo e A Crônica do Matador do Rei os possuem também, e Eon tem até um/uma crossdresser. Porém, eles nunca são o personagem principal. Talvez um quase-principal, como o Alec de TMI, mas vamos combinar que a maioria esmagadora dos leitores de TMI/TID é de mulheres e mulheres são, geralmente, mais tolerantes e menos preconceituosas com esse tipo de coisa. Geralmente. 

Mas alta-fantasia/baixa-fantasia? Eu apostaria em mais homens lendo ou pelo menos um 50/50. E, sinto muito, mas homens são no geral mais cismados com esse tipo de coisa.

Você poderia comentar que As Crônicas de Gelo e Fogo tem personagens LGBT+, mas nos livros nós nunca estamos na cabeça desses personagens. Eles não tem POV, então isso não espanta os leitores que não se sentem confortáveis com isso. A série sim mostra tudo de cabo a rabo, mas o livro? Nops. E A Crônica do Matador do Rei e Eon caem nessa mesma coisa. Então fica a dúvida: ter ou não ter personagens LGBT+?

Logo de cara eu diria sim, já que a função principal dos personagens é servir de conexão entre a história e o leitor, e eu não gostaria que pessoas LGBT+ se sentissem deixadas de lado, do mesmo modo que eu me sinto deixada de lado/completamente frustrada por nunca ter brasileiro nenhum em história nenhuma lá de fora. O sul-americano é sempre da Argentina ou Chile, nunca do Brasil, e quando é, o personagem acaba sendo um bobo festeiro. E isso me irrita à morte, sério. Então acho que representatividade é importante, sejam suas crenças as que forem.

Aëssya já possui personagens LGBT+ há algum tempo, mas eles são figurantes que só aparecem de vez em nunca, e a relação entre os dois não é colocada em foco, até porque a história não é sobre isso. Porém, recentemente decidi adicionar mais um, e o relacionamento dele com outro personagem do mesmo sexo vai ficar um pouquinho mais evidente, embora não tanto assim. Aliás, nenhum romance em Aëssya é o que podemos chamar de “na cara”.

Mas mesmo assim fica o medo de que isso irá acabar empurrando alguns leitores para longe da história. E as coisas se tornam ainda pior quando penso no meu outro projeto, Arcanjo, em que o próprio protagonista é um personagem LGBT+. O que fazer então? Tornar todos os meus personagens héteros e assim ficar mais segura ou retratar a realidade e incluir quem merece ser incluído?

Não faço ideia. Em um momento quero mandar o mercado editorial lá pra aquele lugar e me apegar ao que acredito ser meu “papel” como escritora, mas em outros quero desistir disso tudo e me instalar junto às outras dezenas de escritores de fantasia ft fingir que não estou vendo nada para o bem do meu tormento aka livro. Pode me chamar de egoísta.

De qualquer modo, no momento estou pendendo para o “cumprir meu papel como escritora”. Sei lá, né. Tem coisas mais importantes do que vender bem. Ou pelo menos eu quero acreditar nisso.
Who knows.

Anyway, acho que hoje não vou escrever mais nada não, já que terminei meu capítulo dois ontem e ainda tenho que montar o três direitinho na minha cabeça. Sei o que vai acontecer, claro, mas ainda não visualizei as cenas muito bem e agora vai vir uma parte crítica, que nada mais é do que o Lieth tentando convencer uma Linnea semi-atemorizada a escapar com ele e o Aart de Gantalha ft ir para Draanilak. É a parte que menos gosto desse livro todo. É sério. A coisa toda tem um potencial absurdo para ficar inverossímil/cliché/chato. É um horror.

Bem, até mais.

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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Resenha #06 - Percy Jackson e os Olimpianos, Rick Riordan

Combinando mitologia grega e muita aventura, a saga de Percy Jackson, que aos doze anos descobre que é filho de Poseidon, conquistou jovens e adultos. Foram mais de 15 milhões de livros vendidos no mundo e quase um milhão no Brasil, além de uma adaptação para o cinema que atraiu 1.800.000 expectadores no país. Mais de 40 fã-clubes parceiros da editora alimentam diariamente blogs, sites e comunidades na internet. O último olimpiano foi primeiro lugar na lista de mais vendidos da Veja já na semana de lançamento, e os livros da série figuram hoje entre os mais vendidos de Veja, Época, Folha de S. Paulo, Estadão e O Globo.

Essa é uma resenha um pouco diferente, já que falarei de uma série inteira ao invés de um livro só. Percy Jackson e os Olimpianos é uma série infanto-juvenil escrita pelo americano Rick Riordan, que já lançou outra, As Crônicas dos Kane, esta sobre deuses egípcios, e no momento está escrevendo Heróis do Olimpo, a continuação de PJO.

OBS: Como já dito, essa é uma resenha da série como um todo, e poderão haver alguns spoilers, embora eu não revele o final da saga ou coisa do tipo. Leia por sua conta e risco.

Quando li O Ladrão de Raios, primeiro livro da série, pela primeira vez – e faz um bom tempo, quatro anos, eu acho -, li porque o livro tinha saído nos jornais como o novo Harry Potter e eu era (bem, ainda sou) fã da série. Isso já aconteceu tantas vezes nos últimos anos que uma boa parte dos livros que venho lendo são sempre “o novo [insira séride sucesso aqui]“; aconteceu com Crepúsculo, As Crônicas de Gelo e Fogo, Percy Jackson, Fallen, Os Instrumentos Mortais e tantos outros. Felizmente, na maior parte das vezes, esses “novos sucessos” se comprovaram, no mínimo, agradáveis. O Ladrão de Raios (e a série como um todo) foi um desses casos.

Apesar de a história ter alguns clichés (que alguns insistem em chamar de ideias copiadas de Harry Potter), o enredo de Percy Jackson e os Olimpianos é bem interessante e original, tanto pelo que acontece como pelo modo com que o livro foi narrado. Em meio à tantas obras narradas mais ou menos do mesmo jeito, Riordan conseguiu dar um tom novo à sua série ao contá-la da perspectiva de um protagonista com um humor irreverente.

Depois que assimilei o fato de meu professor de latim ser um cavalo, fizemos um passeio agradável, embora tivesse o cuidado de não andar atrás dele. Havia participado algumas vezes das rondas com pazinhas para recolher cocô de cachorro na Parada do Dia de Ação de Graças da loja Macy’s e, lamento dizer, não confiava na parte de trás de Quíron tanto quanto confiava na da frente.

Esse humor reflete nos nomes dos capítulos e até mesmo no desenrolar de alguns acontecimentos, que parecem completamente disparatados no primeiro momento, mas que depois ajudam a dar à série um tom especial e diferente. O mesmo acontece com a interpretação dos mitos e na representação dos deuses. Para mim, essa foi a melhor sacada do Riordan e um dos fatores que levaram Percy Jackson e os Olimpianos ao sucesso.

Os personagens do livro também são bons. Na verdade, essa é uma das poucas séries em que eu consegui realmente gostar do protagonista e não apenas dos personagens secundários (tanto que quando fui ler O Herói Perdido, primeiro livro de Heróis do Olimpo, fiquei sinceramente decepcionada quando percebi que não seria o Percy a narrar a história). O trio principal, Grover, Annabeth e Percy, lembra sim em alguns momentos Rony, Hermione e Harry, mas eles se desenvolvem de um modo completamente diferente e suas personalidades se tornam mais únicas a cada livro que se passa. Annabeth é inteligente, mas, ao meu ver, se difere de Hermione quanto ao modo de agir e de pensar. As duas não são, nem de longe, a mesma personagem.

Na minha opinião, Percy e Nico são os melhores personagens da série (embora Clarisse chegue bem perto dessa marca também). Percy por ser um mocinho diferente da maioria, e Nico por ter um dos maiores desenvolvimentos de todos os personagens dos cinco livros.

É realmente incrível até que ponto os seres humanos podem ir para adaptar as situações à sua concepção de realidade.

Agora falando dos pontos negativos, esse mesmo modo diferente com que a história foi narrada tem seu lado não tão bom assim. Percy Jackson é uma série escrita com tanto humor que, mesmo tratando, em alguns momentos, de temas importantes, não consegue se equiparar, pelo menos ao meu ver, com outras sagas que realmente ficam com você por mais tempo. O Ladrão de Raios, por exemplo, foi um livro tão rápido e fácil que consegui terminá-lo em apenas um tarde, e o máximo de sentimento/emoção/sei lá que ele me causou foi diversão, ou seja, foi apenas uma leitura agradável. Não foi um livro que permaneceu na minha cabeça por muito tempo, e os outros volumes da série seguiram por um caminho parecido. Somente O Último Olimpiano (pra mim, o melhor) conseguiu realmente permanecer comigo por mais do que alguns dias.

É claro que isso pode não ser visto como algo ruim. Afinal, o objetivo principal da literatura, de um modo geral, é entreter. E, bem, pessoas enxergam coisas diferentes no mesmo livro; conheço muitas para quem Percy Jackson foi muito mais importante e significou algo completamente diferente. Essas coisas mudam de pessoa para pessoa, então é mais gosto pessoal mesmo. Já não ouviram algo sobre como um livro é na verdade mil livros, sendo diferente para cada pessoa que o lê?

Aliás, gostaria de pontuar uma coisa. Esses dias li uma matéria em um site famoso de literatura que dizia que Percy Jackson e os Olimpianos era raso demais e "literatura de mercado" demais. Isso me deixou tão frustrada que passeis horas remoendo o texto sem conseguir parar de pensar nele e olha que nem sou super fã de PJO. No final dessa ruminação toda, me veio a pergunta; pra que serve literatura? É como essas pessoas que chamaram PJO de raso pensam, é algo para ser profundo e passar filosofias de vida? Que só serve para publicar livros densos, cheios de significados e reflexões? Ou existe Literatura e literatura?

Eu não posso responder por todos e cada um tem sua opinião. Mas nós que não lemos a grandiosa Literatura com L maiúsculo não somos julgados e condenados por aqueles que a leem? Será que não é justo simplesmente ler por motivos diferentes? Eu não leio para encontrar o sentido da vida ou mesmo para refletir sobre as questões do universo. Sim, se esses tópicos aparecerem é ótimo, excelente e ficarei muito feliz, mas eu leio porque, pra mim, faz parte do ser humano se importar com sentimentos e acontecimentos que não fazem parte de sua vida. Eu leio por procuro emoção e acho que é isso que realmente importa. É óbvio que as coisas ficam melhores se vierem com alguma reflexão, mas se isso não acontecer, tudo bem. Sou eu inferior aos leitores de clássicos por isso? Devo eu usar "livros de mercado" apenas para começar a ler e então partir para os "livros sérios"? Porque se a reposta para essas perguntas for sim, a hipótese toda cai por terra. Leio muito desde os sete anos, não comecei a ler por causa de "livros de mercado", tentei os clássicos e não gostei, e continuo no meu nicho até hoje, simplesmente por me sentir bem lendo livros de fantasia e/ou sobrenaturais. Sou mesmo inferior aos queridíssimos leitores de livros sérios ou é tudo uma fácil, simples e óbvia questão de gosto?

É claro que nossos amigos elitistas sempre ignoram o fato de que esses "livros de mercado" são livros de mercado por um motivo. É porque as pessoas se identificam com eles e com seus personagens, e são capazes de se ver no lugar deles. Quem já leu (ou já viu spoiler, como eu, que ainda não li) o quarto volume de Heróis do Olimpo sabe que uma questão sobre sexualidade foi colocada em foco nele. O quão importante isso pode ser para um jovem que se encontra na mesma situação? E quantas pedras o autor levou e vai levar por tratar disso em um livro infanto-juvenil, já que aparentemente todos os pré-adolescentes do mundo só se descobrem com gays/bi/whatever após poder ler young adult e ter "idade o suficiente" para falar desse tipo "coisa"? 

Eu acredito que esse tipo de literatura seja tão ou até mais importante do que refletir sobre o motivo de nossa existência, muito obrigada.

Enfim, deixa eu continuar com minha resenha.

Como eu ia dizendo, na minha opinião, Heróis do Olimpo é melhor do que Percy Jackson e os Olimpianos, mesmo eu sentindo falta da narração do Percy de vez em quando. Lá os personagens são mais bem desenvolvidos e o surgimento do acampamento romano foi algo que me empolgou bastante. De qualquer modo, o universo criado por Riordan merece sim atenção e reconhecimento, e suas séries estão entre as melhores do gênero para mim.

Para finalizar, o fato de Percy não ter conhecido o pai desde pequeno não é algo copiado de Harry Potter. Primeiro porque Percy não é órfão como Harry, segundo porque isso não é exatamente algo cliché, e sim uma TROPE, ou seja, algo que os escritores usam em suas histórias e que é tão “base” que é mais um tipo de personagem/narração do que um cliché. E gostaria de lembrar que Harry Potter não foi o primeiro órfão da literatura ou dos cinemas; Frodo era órfão, os protagonistas de Desventuras em Série eram órfãos, Daenerys Targaryen era órfã, e até James Bond e Tarzan eram órfãos. E que, também, Percy Jackson não foi o primeiro garoto filho de alguém no mínimo importante: Luke Skywalker não sabia que seu pai era Darth Vader, Eragon também não conhecia o seu e Jon Snow ainda não sabe quem diabos é sua mãe. Resumindo, eu sou fã de Harry Potter, mas usar um argumento desse tipo para acusar Percy Jackson de plágio é ridículo. Sinto em dizer-lhes, mas a Rowling não criou nada novo ao fazer do Harry um órfão criado por seus tios.

No mais, é isso. Desculpem pelo rant no meio da resenha.


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