Hoje a resenha será um pouco diferente. Ou melhor, será como a de PJO que fiz há algum tempo: cinco livros em único post.
Acredito que todos já saibam mais ou menos o enredo da série As Crônicas de Gelo e Fogo (ASOIAF). Mas, para aqueles que não sabem, farei um resumo pequeno. O único spoiler que dei nessa matéria está sinalizado, então não tem problema algum ler se você ainda não terminou o livro cinco.
ASOIAF é uma série um tanto diferente das demais por não possuir um personagem principal certo. No primeiro livro nos é apresentada principalmente a Casa Stark, tendo seu chefe, Eddard Stark, como Protetor do Norte. Ned, como também é conhecido, é convidado pelo rei Robert, seu velho amigo, para ser sua Mão após a morte da última, Jon Arryn. A Mão do Rei é basicamente quem governa o reino quando o rei não está muito afim de cumprir sua função. Com a suspeita de que Jon Arryn foi assassinado por saber algo que não devia, Ned parte para o sul com duas de suas filhas, Arya e Sansa.
Paralelo ao que acontece com a Casa Stark, acompanhamos também Daenerys Targaryen e seu irmão, Viserys, filhos do Rei Louco Aerys, que foi deposto por Robert em sua rebelião. Os dois escaparam para Essos, o outro continente do mundo de ASOIAF, e vivem lá desde então. Por se considerar herdeiro legítimo do Trono de Ferro dos Sete Reinos (e ele de fato é), Viserys “vende” sua irmã para Drogo, um Khal (algo como rei) entre os dothrakis, um povo visto como selvagem por muitos, em troca de um exército para reconquistar o que considera como seu por direito.
E além disso tudo (sim, é muita coisa), temos os rumores do reaparecimento Outros, que quase dizimaram os humanos há milhares de anos atrás, quando a Longa Noite, um inverno que durou décadas, veio. Agora que o inverno está chegando mais uma vez, os caminhantes brancos se levantam além da Muralha e têm somente uma fraca sombra do que já foi a Patrulha da Noite, uma ordem de homens juramentados a proteger os reinos dos homens, como adversário. Ou seja, Westeros é como um barril de pólvora prestes a estourar.
Eu li o primeiro volume de ASOIAF lá em 2010, quando a série da HBO mal havia começado, e confesso que não gostei muito. Acho que na época eu não tinha, sei lá, amadurecido o suficiente para gostar de uma história tão cheia de picuinhas, jogos políticos e traições como ASOIAF é. Para falar a verdade, eu estava muito habituada à alta-fantasia para me acostumar ao universo de baixa-fantasia que Westeros aparentava ser. Acredito que o fato de que tinha gente (bem, ainda tem) falando que Martin era o Tolkien americano contribuiu um pouco para minha cisma com essa história. Todo mundo sabe que sou fã incondicional de Tolkien e de seus livros, e até hoje me recuso a incluir os dois “r” no nome do Martin por motivo de princípios.
Em 2011 decidi reler a história, mais por causa do final mesmo. Pra mim, o primeiro livro ainda é o melhor, e seus últimos capítulos são perfeitos. Enfim, continuando, para minha surpresa, eu adorei a história na minha segunda lida. Já estava mais acostumada com o ambiente, por assim dizer, e admito que hoje essa mistura entre baixa e alta-fantasia é meu tipo preferido de literatura fantástica.
Os pontos fortes de ASOIAF são, sem dúvida, os personagens. Eles são diversos, diferentes, complexos e únicos, e mesmo que você não goste de um, com certeza irá identificar um ou dois traços de sua personalidade ou história que fazem com que você tenha o mínimo de simpatia pelo personagem. É, aliás, meu caso com Cersei, Jaime, Arya e Jon Snow, e desses últimos dois já confesso ter gostado mais, mas isso explico mais tarde.
Outra coisa de que gosto muito em ASOIAF é a escrita. Alguns reclamam que é muito descritiva/densa/sei lá, mas esse tipo de narrativa é, sem dúvida, minha preferida. Eu /amo/ livros descritivos. Só isso já o coloca vários pontos acima da média da maioria das obras que leio.
Uma sacada muito boa do Martin também foi colocar a magia como algo bem fraco no início, ampliando-a com o passar dos volumes. Essa abordagem acabou por fazer o leitor se conectar ainda mais com os acontecimentos, já que podemos nos identificar com um mundo aparentemente sem coisas fantásticas (bom, pelo menos sem coisas fantásticas no presente) que vai, aos poucos, se revelando um lugar cheio de magia, sendo esta frequentemente obscura. Isso deu um ar de “epicidade” incrível para a série.
Agora que já expus porque gosto tanto de ASOIAF, vou explicar o que a faz não ser minha saga preferida. Hora dos pontos negativos.
Primeiro, cadê o maldito inverno? Ele estava chegando no um, supostamente, mas no quinto ele está apenas começando a se instalar, ainda se mesclando com o outono. E isso em cinco livros, todos com mais de seiscentas páginas, pelo amor de Deus. A previsão é de sete volumes, ou seja, só temos mais dois para ver a coisa pegando fogo (ou frio, sei lá) e eu ainda sinto como se estivéssemos no início da história. Mesmo depois de cinco livros-tijolos. Tipo????
Segundo, haja enrolação. No quinto livro principalmente. Os acontecimentos se arrastaram à passo de lesma e, sinceramente, A Dança dos Dragões se tornou o volume mais fraquinho justamente por isso. [SPOILER PARA QUEM NÃO LEU O LIVRO 5] E pra que diabos o Quentyn existiu, hein? Eu fiquei tão empolgada no fim do quarto por causa da vingança de Dorne, aí vem o quinto e me faz uma miséria dessa. Me decepcionei profundamente. [FIM DOS SPOILERS] É a mesma coisa que mencionei no parágrafo anterior; ainda me sinto como se a história estivesse começando. Daenerys não está nem perto de Westeros, pelo anjo.
Terceiro, eu não consigo me apegar mais aos personagens, por dois motivos. Um, eles morrem toda hora. Ok, isso era foda no início, mas agora? Estou tão acostumada que pra mim tanto faz como tanto fez. Três quartos dos personagens podem morrer e eu no máximo bocejaria. Dois, muitos se tornaram insuportáveis. Eu amava a Daenerys, adorava a Arya e Jon Snow era decididamente meu favorito. Eu ainda gosto das definições deles, sabe? Tipo, a menina que foi vendida pelo irmão mais velho e se tornou a mãe dos primeiros dragões em sabe se lá quantos anos, a garota que sempre recebeu xingamentos e pirraças porque era diferente e não queria ser uma senhora, o menino bastardo que cresceu sabendo que acabaria sendo deixado de lado e ingressou na lendária patrulha que protege o reino dos homens… Falando assim, eu os adoro. Mas nos livros, nos capítulos deles? Jon Snow me mata de tédio, Arya se tornou uma bolinha de fúria convencida e Daenerys faz umas burradas que só de ler tenho vontade de jogar o livro pela janela e fingir que aquela garota super legal do livro um ainda existe.
É por isso que meu personagem preferido é a Sansa. Eu a odiava no livro um, mas agora ela é absolutamente a melhor de todos pra mim. Veja bem, a maior parte dos outros personagens tenta desesperadamente se convencer de que é forte. Cersei diz para si mesma que é uma leoa e que pode governar, mas só faz burrice. Arya vive pensando que não precisa de ninguém, mas obviamente precisa. Daenerys fica só no “sou do sangue do dragão” e se faz de rainha, mas continua cometendo as mesmas infantilidades e colocando tudo a perder. Sansa não. Sansa sabe que não é nadinha no jogo dos tronos e ao invés de fingir ser algo mais, ela aceita e presta atenção. Ficarei incrivelmente decepcionada se ela não se tornar a Rainha no Norte e colocar todo mundo pra correr.
Tem outras coisas que me irritam, como a insistência que o povo com mais idade tem de dizer que os mais jovens são “[insira coisa aqui] do verão”, com um toque de condescendência. Isso me irrita demais. Parece sermão de velho. Óbvio que eles são do verão, eles são jovens! E esses velhos um dia foram do verão também, e só se tonaram maduros e sabe lá mais o quê com o passar do tempo. Pra que cobrar isso de quem não passou pela mesma coisa ou vê-los como inferiores/bobos? Não faz sentido algum. Eu mesma me sinto ultrajada no lugar dos personagens do verão, que são, em sua maioria, aliás, os únicos fazendo essa guerra girar.
Enfim, é melhor parar antes de eu sair fazendo um monólogo de vinte páginas. Eu adoro ASOIAF, mas essas falhas me impedem de realmente amar a saga como amo A Crônica do Matador do Rei e O Senhor dos Anéis. De qualquer modo, são livros incríveis e eu recomendo para absolutamente todo mundo. Quanto à série da HBO, adoro a primeira temporada, odeio a segunda e ainda não assisti a terceira. Acho que é só isso.
(4.5, na verdade, mass)


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