domingo, 20 de outubro de 2013

Resenha #10 - O Espadachim de Carvão, Affonso Solano

Título: O Espadachim de Carvão
Série: -
Autor: Affonso Solano
Fantasy - Casa da Palavra
Filho de um dos quatro deuses de Kurgala, Adapak vive com o pai em sua ilha sagrada, afastada e adorada pelas diferentes espécies do mundo. Lá, o jovem de pele absolutamente negra e olhos brancos cresceu com todo o conhecimento divino a seu dispor, mas consciente de que nunca poderia deixar sua morada. Ao completar dezenove anos, no entanto, isso muda. Testemunhando a ilha ser invadida por um misterioso grupo de assassinos, Adapak se vê forçado a fugir pela vida e se expor aos olhos do mundo pela primeira vez, aplicando seus conhecimentos e uma exótica técnica de combate na busca pela identidade daqueles que desejam a morte dos Deuses de Kurgala.

Sempre procuro olhar livros brasileiros de fantasia de um modo diferente. Não por preconceito ou algo do tipo, mas sim porque eu mesma quero seguir o ramo e publicar minhas histórias um dia. Mas, até alguns anos atrás, era meu costume ignorar esses livros – na verdade, eu sequer sabia que eles existiam. O boom que a literatura nacional para jovens é bem recente e, na sinceridade, se resume, quase sempre, aos livros da Fantasy.

Mesmo assim, já tenho uns cinco autores brasileiros na minha estante, e devo dizer que somente um realmente me agradou. Por isso, durante meses e meses, evitei O Espadachim de Carvão com medo de não gostar e depois ficar lamentando o dinheiro perdido. Mas então, alguns sábados atrás, o Solano esteve aqui em Salvador e eu pensei, bem, por que não aproveitar e comprar o livro (e ainda descolar um autógrafo)?

Li o livro em um dia, praticamente. É bem curtinho, 255 páginas. E, apesar de não me arrepender de tê-lo comprado, não posso dizer que fico muito feliz por tê-lo feito.

O Espadachim de Carvão teve, de modo geral, dois problemas.

Primeiro, ele é muito curto. E não, não é nada do tipo “ah, livro de fantasia tem que ser longo mimimimi”. Nada disso. É que simplesmente não deu tempo de desenvolver os personagens. Adapak é quem mais muda, já que vai descobrindo que o mundo não é um lugar tão perfeito assim, mas mesmo sua jornada como personagem é quase imperceptível. A gente não chega a sentir ele se desenvolvendo, e fica algo mais dito do que mostrado. Aliás, essa é até uma crítica à escrita do Solano; às vezes ele diz demais na hora em que deveria mostrar e o resultado acaba incomodando um pouco. De resto, achei sua escrita simples, nada incrível, mas boa mesmo assim.

O segundo problema foram os diálogos.

Aliás, esse é um problema de praticamente todos os novos escritores brasileiros que ando lendo por aí. É algo bizarro. Não sei se tem meu gosto pessoal envolvido, mas um bom diálogo, para mim, é aquele que consegue exprimir bem sentimentos/emoções/estados de espírito sem precisar de ajuda estética, como caps lock ou itálico, e O Espadachim de Carvão tem muito disso. Muito mesmo. Na minha opinião, os diálogos foram a pior parte do livro, praticamente a única coisa que me irritou de verdade.

E, não posso deixar de dizer, esses mesmos diálogos serviram para muitos infodumps, ou seja, para nos informar sobre mundo de Kurgala. É claro que usar o diálogo foi uma ideia muito melhor do que sair explicando durante a narrativa, mas ficou algo na cara demais. Tipo, sei que algumas cenas foram colocadas para nos ajudar a entender as coisas (o que é compreensível, já que toda cena de worldbuilding têm que servir pra isso), mas me senti naqueles animes antigos em que os personagens perguntam coisas óbvias só para nos informar o que está acontecendo. Poderia ter sido algo mais sutil.

A lâmina de osso despertou com um silvo ao deslizar no forro da bainha, implorando para que sua superfície perfeitamente branca logo fosse maculada. Um terceiro baque agora destruía completamente o que antes era a janela do aposento, abrindo um rombo grosseiro para o mundo exterior.
Um deles entrou.

Quanto à história, eu gostei. Não foi algo sério e épico, mas serviu bem para entretenimento e o final, apesar de um pouco corrido, se encaixou na trama sem muitos trancos e barrancos. A maior parte dos personagens ficou muito superficial, infelizmente, e nenhum fez com que eu me conectasse à história de fato.

O Espadachim de Carvão não é um livro ruim. É agradável, então indico para quem quer passar uma tarde lendo algo sem muito compromisso. Acredito que a sequência, que será lançada ano que vem (pelo o que ouvi dizer), será melhor e desenvolverá mais os personagens, porque, sinceramente, O Espadachim de Carvão me passou a ideia de amadorismo demais. Não sei. A ideia da história é boa sim, e dava para fazer algo melhor, acredito.

PS: Já ia me esquecendo, mas dá-lhe exclamações. Algum escritor já disse (não lembro nem o que comi hoje, quanto mais o nome do homem) que uma exclamação por vida já tá bom o bastante e, apesar de esse ser um exagero (obviamente), uma ou duas exclamações por livro deveriam ser o limite. É sério.

PS2: O mundo de Kurgala realmente me agradou. É bem original, com espécies diferentes. Me fez lembrar de Star Wars, sabe-se lá porquê.

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