Mais reclamações a caminho.
Minorias em livros de fantasia são um inferno. Não porque eu não ache que elas não deveriam estar neles, mas por vários outros fatores e consequências de sua inclusão, principalmente aqui no Brasil.
Para falar a verdade, eu não sabia que existia todo um fuzuê para se colocar POCs (person/people of color ou não-brancos) em qualquer tipo de livro até que achei a comunidade de língua inglesa do Tumblr. Obviamente, entrei em pânico pensando que não tinha POCs em Aëssya e só fui me dar conta de que existe todo um reino POC em Arzanael dias depois, simplesmente porque estava acostumada com o que é normal para a gente aqui do Brasil (ou pelo menos da Bahia, vai saber né) e não com o que é lá fora. Nos EUA/Europa, o branco é maioria na maior parte das regiões, mas aqui em SSA, por exemplo, tem muito mais mulato/negro do que branco. Então eu não tinha me dado conta de que Anaruen era um reino de mulatos/morenos porque esse é o padrão pra mim. Faz sentido?
Para você ver o que a afobação faz com uma pessoa.
E eu mesma sou uma POC, já que sou latina. Mesmo sendo branquela. E aqui no Brasil o racismo nem é tão tenso quanto é nos EUA/Europa, graças a Deus.
Enfim, não é exatamente essa questão da minoria que me preocupa. É a de outra minoria, a de LGBT e afins. A maior parte das obras de fantasia hoje em dia possuem pelo menos um personagem homossexual/bissexual, principalmente se for de fantasia urbana, como Os Instrumentos Mortais. As Crônicas de Gelo e Fogo e A Crônica do Matador do Rei os possuem também, e Eon tem até um/uma crossdresser. Porém, eles nunca são o personagem principal. Talvez um quase-principal, como o Alec de TMI, mas vamos combinar que a maioria esmagadora dos leitores de TMI/TID é de mulheres e mulheres são, geralmente, mais tolerantes e menos preconceituosas com esse tipo de coisa. Geralmente.
Mas alta-fantasia/baixa-fantasia? Eu apostaria em mais homens lendo ou pelo menos um 50/50. E, sinto muito, mas homens são no geral mais cismados com esse tipo de coisa.
Você poderia comentar que As Crônicas de Gelo e Fogo tem personagens LGBT+, mas nos livros nós nunca estamos na cabeça desses personagens. Eles não tem POV, então isso não espanta os leitores que não se sentem confortáveis com isso. A série sim mostra tudo de cabo a rabo, mas o livro? Nops. E A Crônica do Matador do Rei e Eon caem nessa mesma coisa. Então fica a dúvida: ter ou não ter personagens LGBT+?
Logo de cara eu diria sim, já que a função principal dos personagens é servir de conexão entre a história e o leitor, e eu não gostaria que pessoas LGBT+ se sentissem deixadas de lado, do mesmo modo que eu me sinto deixada de lado/completamente frustrada por nunca ter brasileiro nenhum em história nenhuma lá de fora. O sul-americano é sempre da Argentina ou Chile, nunca do Brasil, e quando é, o personagem acaba sendo um bobo festeiro. E isso me irrita à morte, sério. Então acho que representatividade é importante, sejam suas crenças as que forem.
Aëssya já possui personagens LGBT+ há algum tempo, mas eles são figurantes que só aparecem de vez em nunca, e a relação entre os dois não é colocada em foco, até porque a história não é sobre isso. Porém, recentemente decidi adicionar mais um, e o relacionamento dele com outro personagem do mesmo sexo vai ficar um pouquinho mais evidente, embora não tanto assim. Aliás, nenhum romance em Aëssya é o que podemos chamar de “na cara”.
Mas mesmo assim fica o medo de que isso irá acabar empurrando alguns leitores para longe da história. E as coisas se tornam ainda pior quando penso no meu outro projeto, Arcanjo, em que o próprio protagonista é um personagem LGBT+. O que fazer então? Tornar todos os meus personagens héteros e assim ficar mais segura ou retratar a realidade e incluir quem merece ser incluído?
Não faço ideia. Em um momento quero mandar o mercado editorial lá pra aquele lugar e me apegar ao que acredito ser meu “papel” como escritora, mas em outros quero desistir disso tudo e me instalar junto às outras dezenas de escritores de fantasia ft fingir que não estou vendo nada para o bem do meu tormento aka livro. Pode me chamar de egoísta.
De qualquer modo, no momento estou pendendo para o “cumprir meu papel como escritora”. Sei lá, né. Tem coisas mais importantes do que vender bem. Ou pelo menos eu quero acreditar nisso.
Who knows.
Anyway, acho que hoje não vou escrever mais nada não, já que terminei meu capítulo dois ontem e ainda tenho que montar o três direitinho na minha cabeça. Sei o que vai acontecer, claro, mas ainda não visualizei as cenas muito bem e agora vai vir uma parte crítica, que nada mais é do que o Lieth tentando convencer uma Linnea semi-atemorizada a escapar com ele e o Aart de Gantalha ft ir para Draanilak. É a parte que menos gosto desse livro todo. É sério. A coisa toda tem um potencial absurdo para ficar inverossímil/cliché/chato. É um horror.
Bem, até mais.

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