quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Dicas de Escrita #04 - Fantasia & Sobrenatural - Conhecimentos básicos (2/2)

Fantasia é meu gênero preferido, de muito, muito longe. Sou viciada em elfos, dragões e grandes guerras desde que me lembro e por isso 95% das ideias que tenho são voltadas para essa temática. Obviamente, venho pesquisando bastante sobre o gênero há anos, já que meu primeiro livro, o que estou escrevendo atualmente, é desse tipo.

Fantasia é um assunto muito amplo, mas a primeira coisa que você tem que aprender se é um iniciante no gênero é simples: há grandes chances de você ser um clone de Tolkien.

Para quem não sabe, Tolkien é o autor de O Senhor dos Anéis, O Hobbit e outros livros que contam a história da Terra-média. Ele é considerado o pai da fantasia moderna e todos, todinhos mesmo, que vieram depois dele acabaram influenciados pelos seus trabalhos. Você é influenciado mesmo se não gostar de O Senhor dos Anéis; se você gosta de fantasia, provavelmente gosta de algum autor em especial, e existe uma enorme chance de ele ter se inspirado em Tolkien. Isso, obviamente, gera um monte de histórias que parecem ser quase completamente iguais.

A situação no Brasil é ainda pior. Os livros de fantasia que chegam até aqui são apenas uma fração dos que são publicados lá fora. O Olho do Mundo, de Robert Jordan, é considerado um clássico da fantasia no mundo inteiro, mas até pouco tempo atrás quase ninguém aqui sabia de sua existência. O Olho do Mundo foi lançado dia 2 de setembro do ano passado pela Intrínseca, depois de vinte e três anos do lançamento da versão original, em inglês. Mistborn, de Brandon Sanderson (que, aliás, terminou a série de O Olho do Mundo porque o Robert Jordan morreu antes), também será publicado aqui em breve, finalmente. Durante anos e anos, nós recebemos apenas as histórias que alcançavam sucesso estratosférico - O Senhor dos Anéis, Nárnia, Eragon e recentemente As Crônicas de Gelo e Fogo (mais conhecida como Game Of Thrones). O resultado disso? Simples: nossos livros de fantasia são ainda mais repetitivos dos que são lançados no exterior, porque O Senhor dos Anéis, por muito tempo, foi a única coisa que tivemos por aqui.

Como reconhecer um clone de Tolkien? Se a história tiver elfos, são elegantes, sábios, raramente cometem erros, a maior parte usa arco e flecha. Não gostam dos anões, que são ferreiros e mineradores incríveis, além de grandes construtores de cidades dentro das montanhas. O mundo é praticamente uma Europa medieval. Bem e mal são bem definidos, inclusive em relação aos personagens. Os elfos provavelmente vieram de algum lugar além-mar há muito perdido na memória e os dragões foram extintos ou quase não existem. 

(Se você reconheceu Eragon, não, você não está errado.)

Como não se tornar um clone de Tolkien? Novamente, simples: leia outros livros de fantasia. Uma boa parte deles não foi e provavelmente não vai ser publicada aqui nunca, mas fuçando na internet você consegue achá-los em inglês ou traduzidos por fãs. É um estorvo, mas não há outro jeito, não se você quiser ser um bom escritor de fantasia. 

Agora para as vias de fato.

Existem dezenas de subgêneros de fantasia, mas os principais são alta-fantasia e baixa-fantasia.

  • Alta-fantasia: O Senhor dos Anéis é o maior exemplo. Alta-fantasia se passa em um mundo diferente, completamente independente, mas que pode ser ligado ao nosso (Nárnia). Os problemas de uma série de alta-fantasia são em escala mundial, como, por exemplo, salvar o mundo, destruir o carinha que quer escravizar a todos, etc. Geralmente trata de grandes questões da vida, como o destino. Lotadas de grandes guerras e batalhas, além de seres de todo o tipo. A magia é uma presença constante e desempenha um papel considerável na história.
  • Baixa-fantasia: A Crônica do Matador do Rei (Patrick Rothfuss) é o maior exemplo. O mundo pode ser o nosso, mas o mais frequente é que seja outro mesmo. Os problemas são em escala menor, tratando mais da vida dos personagens ou de um reino, e não do mundo inteiro. Há também coisas mais “reais” na baixa-fantasia (a política ou jogos da corte, por exemplo),  e a magia não representa um grande papel, embora esteja presente.

As Crônicas de Gelo e Fogo são um caso especial. No início, podia ser classificada como baixa-fantasia, pois tratava da guerra pelo trono de Westeros, mas quem leu os últimos livros sabe que há, agora, o perigo de que o mundo seja coberto pela Longa Noite e, desse modo, seja destruído para sempre. Essa não é, definitivamente, uma característica típica da baixa-fantasia, e com a magia aumentando cada vez mais, As Crônicas de Gelo e Fogo pode ser considerada uma obra de alta-fantasia.

Como escrever um livro bom de fantasia? Bem, eu adoraria saber a resposta exata para essa pergunta (me livraria de um monte de problemas, acredite), mas nesses anos em que venho fuçando todos os cantos da internet atrás de coisas relacionadas a fantasia, encontrei algumas boas dicas.

  • Faça seu mundo especial. Não o faça apenas uma réplica da Europa medieval com magia. O continente europeu não era o único a existir no passado; dê uma olhada na cultura de outros lugares e tente basear seu mundo neles. Além disso, tente mesmo pensar em coisas únicas para o caracterizar melhor; isso é fantasia. Faça o que você quiser.
  • Se houver magia, saiba usá-la. Não dê uma de deus ex machina, fazendo a magia salvar todo mundo na última hora sem explicação ou com uma explicação capenga. Crie regras para a magia e para aqueles que a usam. Faça um sistema crível.
  • Fuja dos clichés. O garoto da fazenda que descobre ser algo incrível (filho do rei, o guri da profecia, etc). O velho mentor sábio (que provavelmente morre), a princesa guerreira que está pouco se lixando pra homens, a profecia, o Lorde das Trevas, etc. Isso não quer dizer que você não pode usar esses tipos de personagem, só que é preciso dar um ar novo para eles.
  • Crie novas raças. Eu amo elfos de paixão, mas criar novas raças é sempre bom. Dá um toque especial na história, se forem bem pensadas. Isso não quer dizer que você não pode usar elfos e anões, obviamente.
  • Deuses e religiões. É bem improvável que seu mundo tenha apenas uma religião ou um deus. Nós não temos uma única religião e um único deus, imagine um mundo onde magia existe então? Diversidade é a chave.
  • Whitewashing. Já que boa parte dos mundos fantásticos por aí são baseados na Europa, todo mundo acha que só deve ter branco. Gente, não tinha só branco na Europa medieval. Nem deveria existir só branco na sua história. Novamente, diversidade é a chave.
  • Worldbuilding. Pense na geografia do seu mundo. Pense nos reinos que existem e quais as relações entre eles. Como é o clima, como é medida a passagem do tempo, qual a moeda, etc. Worldbuilding é uma das tarefas mais cansativas, mas vale a pena.
  • Cuidado com as personagens femininas. Mulheres em livros de fantasia são sempre um assunto polêmico. Na verdade, é tudo culpa do mito da personagem feminina forte, o que acabou geralmente as personagens femininas que agem como homens (e o total desprezo pelas personagens femininas que agem como mulheres). Esse é um tópico muito extenso. Mais outra coisa pra eu fazer de matéria.
  • Aliás, cuidado com todos os personagens. Não caia em clichés e estereótipos. Seus personagens são pessoas, lembre-se disso.
  • Idiomas. Mesmo que você não queira criar idiomas novos, você tem que ter em mente que é impossível um mundo em que todo mundo fale a mesma língua. Povos diferentes falam línguas diferentes.

Essas são apenas algumas coisas em que você deve prestar atenção e/ou pesquisar sobre. Criar um novo mundo é muito, muito cansativo e requer dedicação. Há chances demais para dar merda, falando sinceramente. Ser original hoje em dia é um processo exaustivo.

Bem, além das fantasia em que você tem que criar um mundo novo, existe as que você pode fazer aqui mesmo, no nosso mundo. A mais conhecida delas é a fantasia urbana, frequentemente confundida com sobrenatural.

Olha, é uma confusão separar fantasia urbana de sobrenatural, e eu nem vou me atrever a ir muito longe nesse assunto. Eu acho (euzinha, e eu provavelmente penso diferente de um monte de gente por aí) que a magia é um dos motivos para diferenciar. Digo, quando a magia é um ponto mais forte, acho que a história pende para fantasia urbana. Mas depende muito. Histórias de bruxas no nosso mundo seriam consideradas do gênero sobrenatural, creio eu. Fantasmas iriam definitivamente para sobrenatural, assim como vampiros e lobisomens. Fadas talvez fossem pra fantasia urbana. Demônios serviriam para os dois.

Enfim, não dá pra diferenciar assim.

Acho que é só isso que eu tenho a dizer, por alto. Como dito no título do post, esses são os conhecimentos básicos. Só worldbuilding daria uma boa quantidade de posts, assim como idiomas, magias e raças. Espero que tenha ajudado e qualquer coisa é só gritar na ask do Tumblr ou comentar aqui mesmo. Fui.
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