Se você está escrevendo um livro de fantasia ambientado em um mundo diferente do nosso, terá que passar pelo temível processo de construção de mundo. É cansativo, desgastante e de vez em quando você vai sentir uma vontade muito tentadora de mandar tudo para o escambau. Mas é o melhor a fazer, e a recompensa é gratificante.
Para sua história ser considerada original, não é só o plot e os personagens que precisam ser únicos. O mundo também precisa. Aliás, um dos segredos da fantasia é justamente esse: fazer com o leitor se sinta em um lugar completamente diferente. A jornada do seu protagonista também é dele, afinal de contas.
Há muitos modos de se começar a construir um mundo. Eu comecei no nada mesmo. Escrevi três capítulos da primeira versão da minha história (lá em junho de 2008, se não me engano) sem fazer a mínima ideia da cara do meu mundo. Na verdade, ele era uma réplica um pouco modificada de Arda, o mundo de O Senhor dos Anéis.
Não precisamos nem pensar muito para descobrir o resultado disso tudo. É claro que deu merda.
Eu não fazia a menor ideia do que estava fazendo. Não tinha nada de planejamento, nada de construção de mundo, nada de desenvolvimento de personagens. Dei literalmente um salto no vazio e me esborrachei no chão com um estilo digno de dar pena.
Como não cometer o mesmo erro do que eu? Primeiro, você tem que ter uma ideia do plot da sua história. Ou seja, saber mais ou menos em que lugares do seu mundo ela vai se passar. Na cidade mais rica? Em tal reino? Seus personagens viajam do lugar A pro lugar B? Essas coisas.
Obviamente, você não precisa ter tudo pronto agora. É só ter uma ideia, para te ajudar a montar o mapa do seu mundo.
Bem, eu demorei cinco anos para conseguir chegar em mundo que agora, pela primeira vez, realmente se difere dos outros em alguns aspectos, simplesmente porque fui teimosa e continuei escrevendo e reescrevendo a história sem ter muita noção da geografia do lugar. Planejei o plot na terceira versão, mas o mundo só veio na sexta. Para me ajudar a formá-lo, eu me fiz certas perguntas.
- Quais os elementos que existem em seu mundo, mas não no nosso?
A resposta mais óbvia, pelo menos para a maior parte dos livros de fantasia, é a magia. As raças também, principalmente se você decidir criar novas. Qualquer coisinha que tenha no seu mundo e não tenha aqui vale. Aqui sua imaginação é quem manda.
- Quais os elementos que existem no seu mundo e no nosso, mas são diferentes?
Veja As Crônicas de Fogo e Gelo, por exemplo. Lá, as estações demoram anos e até décadas. Em Eragon, os nomes (verdadeiros) possuem poder sobre as pessoas. Em Nárnia, alguns animais falam. Em O Senhor dos Anéis, animais também servem de espiões.
Resumindo, você tem que criar coisas, detalhes, que diferenciam seu mundo do nosso. É um processo penoso, mas, bem, é necessário.
- Qual e como é a cultura dominante?
Pense no nosso mundo para essa questão. Qual a cultura que domina todas (ou quase todas) as outras atualmente? Fácil: os Estados Unidos.
Como é a cultura dos EUA? Fácil, mais uma vez: os americanos nasceram de um conceito de liberdade que acabou se transformando em imperialismo. Eles estão em todo lugar, influenciando os países com seu american way of life. Os fast-food são da cultura deles, também. O modo como nos vestimos é influenciado pelo modo como eles se vestem (que por sua vez foi influenciado pelo modo como os europeus se vestem). Os americanos também adoram baseball, filmes e sua sociedade é, até certo ponto, bastante liberal. Praticamente todo mundo tem direito igual garantido por constituição e, tecnicamente, a liberdade de expressão existe.
Agora pare para pensar na cultura dominante do seu mundo. Como ela é? De que país veio? É influenciada por algum tipo de religião? Se sim, qual? O que mais influenciou seu surgimento? É só ir fazendo perguntas assim que você conseguirá construir uma cultura crível.
- Se o reino onde seu protagonista vive não é a cultura dominante, como ela é?
Basicamente a mesma coisa da pergunta de cima, mas nesse caso a cultura em questão não é a dominante. As perguntas continuam valendo, no entanto.
- Faça um resumo rápido de todos os reinos do seu mundo (ou pelo menos dos principais).
Acredite, isso ajuda MUITO. Minha história possuía apenas quatro reinos - que não tinham nada de diferente além do fato de que dois eram élficos, um era humano e o terceiro de uma raça que eu criei - antes de eu parar para pensar nesse resumo. Agora possui sete, e todos já possuem suas religiões, cultura e povos definidos. Não se esqueça de não colocar apenas brancos na sua história. Isso é um assunto muito polêmico na comunidade de escrita em língua inglesa, já que praticamente todos os livros de fantasia retratam brancos.
Lembrando que você não precisa fazer o resumo de todos os reinos, sério. Coloque-se no lugar de uma pessoa da idade média ou da idade antiga; ela sabia quais eram os reinos vizinhos ao seu (se tanto), mas não fazia a menor ideia do que havia do outro lado do mar. Seus personagens não são obrigados a saber também.
Depois que você tiver os reinos importantes detalhados, pegue um papel e lápis e vá tentar desenhar o mapa de sua história. Não deixe essa etapa de lado, sério. A dor de cabeça que você vai ter depois se não se concentrar nisso agora será tenebrosa. Não precisa desenhar absolutamente tudo também; se estiver com dificuldades, desenhe apenas a área que seus personagens vão visitar ou que serão mencionadas durante o decorrer da história.
Procure criar lugares inovadores. Lembre-se: é fantasia. Crie o que bem entender (desde que seja explicável pelas leis do mundo, quero dizer).
Então, quando tiver seu mundo mais ou menos definido, chegou a hora de criar direito aqueles povos e raças que mencionei anteriormente. Isso, infelizmente, vou deixar para outra matéria porque essa ficou gigante. Enfim, talvez eu a poste amanhã ou segunda. Espero que tenham gostado e qualquer coisa é só me gritar na ask do Tumblr ou aqui nos comentários mesmo. Fui.
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